AUGUSTO DE CASTRO

Da Academia Real das Sciexcias

;VERTIGEM

PECA EM 4 ACTOS

HORTO

MAGALHÃES & MONIZ, L.da _ Editoren

II Largo dos Loyos 14 1910

AUGUSTO DE CASTRO

Da Academia Real das Scikxcias

VERTIGEM

>ECA EM 4 ACTOS

LKPRE^EXTADA PELA PRlMEIiSA VEZ XO THEATRO D. A3IEL1A.

DE LISBOA,

XA XOITE DE IS DE FEVEREIRO DE 1910

^;'-<w.

PORTO

MAGALHÃES & MONIZ, L.da _ Editores

II Largo dos Loyos 14 1910

Typ. a vapor da Empresa Litteraria e Typographica 178, Rua de D. Pedio, 184 PORTO

PQ

VERTIGEM

m f actos, representada pela primeira vez iw

Tlicalro D. Amélia, de Lisboa, na ttoite de iS de Fevereiro de i'jiu.

THEATRO DE AUGUSTO DE CASTRO

CaíMINHO Perdido (1906). AiMOR Á Antiga (1907). Chá das Cinco (1909). Vertigem (1910).

A defaut du pardon, laisse venir Voubli!^

Alfred de Musset

FIGURAS

Fernando Lino Manuel . Luiz. .

Chico Gamboa Silvestre Paixão Raul.

O MEDICO .

Maria Eduarda Elisa . Gabriella. Amélinha . NiNi (5 a 6 annos)

Um creado . Outro creado La Creada •2.a Creada

Augusto Rosa Alexandre de Azevedcf Carlos d' Oliveira Chaby Pinheiro Aniomo Pinheiro Henrique Alves Raphael Marques

Maria Falcão Luz Velloso Zulmira Ramos Jesuina Saraiva Guilhermina

Francisco Senna António Pina Júlia d' Assumpção Elvira Costa

Lisboa Actualidade

'^'io

r-yza/7ac enín-L€zaxío e OLanac

^n-L€zax{o (^i

ancfe aniigo

?,

ACTO I

Uma sala. Moveis elegantes. Portas ao Fundo e á D. À E. uma janella. Sobre um sophá, um vestido de baile, um chapéu, detalhes de tuiletie ; ao lado do sophá, uma mala grande de viagem, aberta, deixando ver dentro vestidos, véus, etc; percebe-se que esteve alguém desmanchando essa mala. Uma caixa de chapéus no chão; certa desordem.

No emtanto, na pequena sala, respira-se um perfume elegante. Á D., sobre um movei, um pequeno retrato de creança junto d'um pequeno crucifixo de prata, e em frente uma jarra de flores.

Mais flores na scena. Seis ou sete horas d' uma tarde de verão. Anoitece.

SCENA I

MARIA EDUARDA e AMÉLIXHA

MARIA EDUARDA, ao abrir o panno, vestida d"um longo peignoir de seda, corre para janto da porta do F. por onde acaba de entrar AMÉLIA. —AMÉLIA, :AMÉLÍNHA^, como mais frequentemente será designada na peça, veste menos que modestamente, de preto, chapéu fora da moda. MARIA EDUARDA e AMÉLIA abraçam-se com effusão, como duas pessoas que ha bastante te.Tipo se não vêem.

M. Eduarda

'Trazendo Amélinha para a scena baixa) Aiiida bcm ! Ainda

bem que vieste logo! . . . Deixa-me olhar bem para ti !

Assim. . . (afastando-se um pouco para a olhar melhor) A meSma !

VERTIGEM

estás a mesma ! talvez mais cheia de cara . . . talvez. Mas, de resto, os mesmos olhos, a mesma creatura. Quanto gosto de te vêr ! (enternecida) As coisas que me traz á ideia vêr-te I

A.MÉLINHA

Tu é que estás mais magrita, sabes ? (já arrependida) Desculpa-me dizer-t'o. Deve ser da viagem, talvez um pouco fatigada . . .

M. Eduarda

A viagem, sim a viagem . . . e o resto ! (tomando-ihe as mãos e sentando-a no sophá) Espera. O quc trazcs tu ah! ?

(mostra-lhe um pequeno embrulho que Amélinha pousou)

Amélikha

(Com um sorriso) Uma coisa . . . era um surpreza para ti. \'aes gostar. Estou certa de que m'o vaes agradecer.

M. Eduarda

(Rasgando o papel do embrulho que contém um retrato) Ah ! (com uma expressão súbita de alegria e de ternura) Linda, 3. minl]a lin- dinha ! A minha filha! A minha Nini ! (depois de beijar o retrato) E como obtivcstc tu isto ? É d'agora?.. . Coita- dinha, ao lado do pae, nos joelhos do pae ! Tristinha, sabes? E como está ella? Tu sabes alguma cousa?

Amélinha

Melhor, não é nada. . .

M. Eduarda

Tens a certeza?

acto primeiro 7

Amélinha

Ainda a vi hontem.

M. Eduarda

Visíe-a hontem? E porque m'o não disseste já?

Amélinha

Ia dizer-t'o. Está quasi sem febre. sentadita na cama.

M. Eduarda

Se tu soubesses o que eu tenho passado ! Logo que cheguei, ante-hontem, pensei em escrever-te para saber noticias da minha filha. Alas lembrei-me de que tu não irias tanto a casa. Escrevi ao Fernando Lino. Calculei que, d'elle, obteria mais rapidamente noticias directas. Elle, coitado, foi um bom amigo. Escreveu-me

logo hontem, (arrancando uma carta" do seio) eSCrCVeU-mC ho-

je, duas linhas. Dizia-me que a Nini não tinha nada de cuidado. Uma fébresita, um pouco de tosse que passara quasi, e os seus nervos, aquelles assustadores nervos de creança, os nervos que ella, lindinha, herdou

da mãe ! 'novamente curiosa, aproximando-se mais de Amélinha) AlaS

tu viste-a, não é assim ? Estava anciosa por que viesses para me dizer a verdade. Tinha receio de que o Fer- nando me quizesse enganar. Tu... ah I tu, sabia eu bem, que não terias coragem para isso I E foi bom que viesses agora. Espero o Fernando. Prometteu que viria vèr-me loihando para o relógio) logo . . . mais tarde. Pe- di-lh'o encarecidamente. Prometteu vir.

Amélinha

(Tímida) Tu tinhas-me marcado esta hora . . .

VERTIGEM

M. Eduarda Foi bom. Sim. Vieste muito bem. Estamos assim um

poucochinho sós. (contemplando de novo o retrato) MaS tU ainda

não me disseste como arranjaste isto ! Quando foi tira- do? Que surpreza !

Amélinha

E. . . do dia 15, do dia dos annos d'ella. Trou- xe-o hontem da sala, ás escondidas, para t'o, mostrar. Deus queira que ninguém tenha dado pela falta ! Hoje dou-o ao Silvestre para o collocar, á entrada, (apon-

lando-lhe as costas da photographia) Vê.

M. Eduarda (Lendo) < Nos cinco anuos de Nini o seu pae muito

amigo Manuel >. (deixa cahir a photographia no regaço e fica um mo- mento silenciosa) Os cinco annos de Nini!. . . Como eu me

lembrei d'elleS ! . . . (ievantando-se e indo ao fundo da mala aberta buscar uma caixa de papelão, d 'onde tira uma enorme boneca) Estava

(emendando mais baixo) estavamos cm Florcnça. . . Quc dia! Qs cinco annos de minha filha ! Fui ás escondidas com- prar-lhe esta boneca. Tinha a impressão de que lh'a ia deixar no seu regaçosito inquieto e de que ella, a minha Nini, abria para mim os seus grandes olhos castanhos, erguia até á minha bocca os seus labiositos alegres para me agradecer n'um beijo a bonequinha que diz

papá. . . e mamã. (enternecida, lentamente) E. . . C mamã ! . . .

Como se eu não tivesse tirado á minha filha o direito de amar esta doce palavra de mamã! Como se ella, n'esse dia em que se photographava nos joelhos do pae, pudesse ter um pensamento, que logo lhe não cas- tigassem, para mim !

ACTO PRIMEIRO

Amélinha

(Commovida com as lagrimas de Maria Eduarda, a medo) NãO éS

feliz? Não eras feliz?

M. Eduarda

(Reprimindo-se) Feliz ? (sem responder) E tU ? Sempre fe-

liz, tu ?

Amélinha

Sim, na mesma, (com ingenuidade) Eu não sei se isto é felicidade. . . Nunca conheci outra.

M. Eduarda Mas teu amigo sempre?

Amélinha O Silvestre? Sempre o mesmo.

M. Eduarda

A mesma mania de collecionador, a mesma mania dos versos?

Amélinha

O mesmo - cabeça no ar . Mas eu perdòo-lhe tudo. É doido pelos filhos.

M. Eduarda E tu continuas a ir muito a casa? Amélinha

MenoS; muito menos, mas vou ás vezes. Acompanho- o Silvestre. Depois que tu. . . que tu deixaste a casa. . .

l o VERTIGEM

ah ! tu não calculas o que foi ! Estive duas semanas sem ter coragem de ir. Teu ... o teu marido fechou to- das as janellas da casa. . . tal qual como se tivesse mor- rido alguém ...

M. Eduarda

(Repetindo, baixo) Como se tivcsse morHdo alguém !. . . E o Manuel tratou-te sempre como d'antes?

Amélinha

Na mesma. Mas olha que mudou muito, muito! A Elisa tomou conta de tudo. . .

M. Eduarda sabia.

Amélinha

É quem governa a casa. Ah ! Eu detesto-a. E ella, não sei porquê, talvez por eu ser tua amiga, parece que não morre d'amores por mim. . . Aquelle ar carregado, parece que traz sempre um funeral dentro de si... Olha: o teu amigo Fernando, quando vier logo, é que te pôde dar melhores noticias d'ella.

M. Eduarda Q Fernando?. . . Pois quê?. . . Tens a certeaa?

Amélinha

Diz o Silvestre que é a única pessoa que a faz sor- rir.. . Pelo menos, entendem-se muito bem.

M. Eduarda E a Nini?

ACTO PRIMFIRO II

Amélixha .

Bem sabes: a creança era muito amiga d'ella, coitadinha ! E, isso é verdade, não lhe falta nada !

(emendando, perante a expressão de Maria Eduarda) QuerO dizer,

íaltas-lhe tu . . . Ah ! podes crer ! Custa-me bem ir áquella casa, vêr outra, como se estivesse no teu logar !

M. Eduarda

(Dá-ihe um beijo longo) Fui eu que assim o quiz 1 ?

SCENA II

MARIA EDUARDA, AMÉLIXHA e GABRIELLA

<Pela D. fundo entrA Gabriella .\iorin. Espalhafatosa, elegante).

Gabriella

<D^etendo-se á entrada) Ah ! pardOTl !

M. Eduarda

(Com um sorriso ccntrariado) Qucira entrar, D. Gabriella.

Gabriella Importuno ?

M. Eduarda

Absolutamente nada. (apontando AméUnha) E uma amiga minha, de collegio. . . dos primeiros annos de collegio,

da província. Conversávamos. (Oabriella faz uma pequena corte- zia a Aniélinha; Maria Eduarda apresenta Gabriella) A SCnhora D.

Gabriella. . .

1 2 VERTIGEM

Qabriella

Qabriella Morin.

M. Eduarda .

(Continuando) Quc HÓs encontrámos em Paris com seu marido, um amigo do Luiz, o sr. Francisco Gamboa. Foram ambos nossos companheiros de viagem até Por- tugal. (A um movimento de Amélinha para se levantar) Scnta-tC, Amé-

linha.

Qabriella

Eu é que me não demoro. O Chico disse-me para nos encontrarmos aqui e esperava encontral-o com o Luiz (emendando) com O sr. D. Luiz. Quc horas são?

Améllnha

Devem ser seis e meia. . .

Qabriella

Não. (olhando o relógio n'um berloque) ApCnaS SCis e Um

quarto. Todavia são horas, (para Maria Eduarda) Mas, minha cara amiga, vejo-a ainda toda deshabillée. . .

M. Eduarda

Oh ! toiletle de desarranjar malas, de arrumar ga- vetas. . . E, depois, preguiça. . .

Amélinha

(Completando a sorrir) CalÒr . . .

ACTO PRIMEIRO 13

M. Eduarda

(Levantando-se) Mas SC O Luiz mc tivesse prevcnido da visita do sr. Gamboa 'rara Oabrieiía) e da sua, certamente eu nào me deixaria surprehender assim.

Gabriella

Oh I por nós, mon Dieu! Mas o sr. D. Luiz não lhe disse? Certamente guardou para a uUima hora a sur- preza. Tinhamos combinado ou, melhor, o Luiz e o Chico combinaram jantarmos hoje todos ao ar livre. O Chico sabe que eu adoro essas pequeninas patuscadas, um automóvel, uma latada. . . Oh ! ideal !

M. Eduarda

(Já de pé. depois de tocar a campainha para chamar a Creada) NãO.

O Luiz nada me disse. E fez mal, porque eu tel-o- hia prevenido logo de que não contassem commigo. Prefiro não sair. Ainda me sinto fatigada bastante.

Gabriella

Serio? Alas então não vamos nós também, (a um gesto de Maria Eduarda) Xão, uão. Jautaremos scm latada. Fica o ar livre para outra vez.

M. Eduarda

(Dá uma ordem á Creada que entra; para Gabriella) Com liceUÇa.

Um momento.

Amélixha

(Para sair) VoU deixar-te também. (A Creada começa a arru- mar um pouco a desordem da sala)

14 VERTIGEM

M. Eduarda

(Contrariada ? Espera, é um instante. Ou, melhor, tu mesma me vens ajudar a vestir, (a Oabrieiía) Não a con- traria ficar uns minutos só, emquanto eu (apontando para si) vou pôr um pouco de ordem em todo este desarranjo?

Gabriella

De forma alguma, tanto mais que o meu peíit Chi não deve tardar. . .

Amélinha

1 Baixo, a Maria Eduarda) Quem é O SQU petlt Chi ?.. . É

um cachorro ?

M. Eduarda

(Também baixo, subindo a scena em direcção á E. A,) NãO. E O

que lhe faz as vezes d'homem. Gabriella

(Para Maria Eduarda, tomando das mãos da Creada o vestido de baiK que estava no sophá) TíéS ChiC. E dc PariS ?

M. Eduarda

(Voltando-se, da porta; Sim. Modclo Chory.

Gabriella

(Admirando o vestido) Ah ! ÇÚ 86 VOÍt ! Conhece-SC. C/Zí2- ry ! . . . (Maria Eduarda e Amélinha saem)

ACTO PRIMEIRO 15

SCENAIII

GABRIELLA e a CREADA

Gabriella

(No sophá, para a Creada que continua arrumando a sala) EntãO,

Leocadia, tem tido noticias de M."^^ Cló, a sua antiga patroa? Fui hontem provar um chapéu. Tem agora uma creada russa, bexiguenta.

A CREADA

Ha-de ser a Ignez. esteve antes de mim. (com intenção) A sciíhora dá-se muito bem com ella.

Gabriella

E a Leocadia que tal se aqui, na sua nova casa?

A CREADA

Oh ! maiiama! Por ora I Pouco mais de quarenta e oito horas!. . . Mas agradeço muito á madama o ter feito o favor de me inculcar. Tem poucas visitas a casa, não é verdade?

Gabriella

(Sorrindo) Oh I sim, por emquanío. . . quarenta e oito horas ! . . .

A creada

(Maliciosa) É O que lhe acho. Nestas casas as visitas sempre deixam, sobretudo. . . as visitas que entram pela escada de serviço.

16 VERTIGEM

Gabriella

Ah ! quanto a isso, pode estar certa. A sr.^ D. Maria Eduarda parece-me. . . por ora, fora d'essas coisas.

A CREADA

Estão juntos ha pouco tempo, não é, madama ? Gabriella

(Folheando uma illustração) Qucni ? A CREADA

A sr.^ D. Maria Eduarda e o sr. D. Luiz? Gabriella

(Pegando na photographia de Nini, que Maria Eduarda deixou-no sophá,

e oihando-a) Ha trcs mezcs, supponho.

A CREADA

Tres mezes?... Ella, a senhora, fugiu ao marido, não? E então o sr. D. Luiz é o primeiro?

Gabriella Quem lh'o disse?

A CREADA

Ninguém. Eu é que tenho tratado de me informar. (outro tom) Também, tres mezes, não admira ! Apezar de que. . . i

ACTO PRIMEIRO 17

Gabriella Ella ama muito o sr. D. Luiz. . . Parece. . .

A CREADA

Em todo o caso, sempre suppuz que fossem mais de três mezes. . .

Gabriella

(Distrahida ou fingindo-se distrahida) Porquê ? A CREADA

Porque. . . Eu. . . estas coisas, sim, o que vejo nas casas. Deus me livre ! Mas como foi a madama que fez o favor de me inculcar, sempre me atrevo a dizer. Mesmo. . . sem fazer maus juizos. . .

Mas o quê?

Gabriella

A CREADA

(Mysteriosa) Hontcm c tiojc, ás cscoudidas do sr. D. Luiz, a senhora escreveu duas cartas . . .

Gabriella

E então que tem isso ? Tiveram resposta ?

A CREADA

Veiu um moço hontem, e hoje também. . . Deus me livre de fazer maus juizos! Mas para três mezes! Ás escondidas do patrão... Sempre me parece que não será para o marido. Por isso é que eu dizia á senho- ra. . . (Tocam dentro á campainha. ^A Creada sae.— Gabriella fica um mo- mento só, contemplando a photographia de Nini que depois coUoca no so- phá, no logar em que a deixou Maria Eduarda.)

Ig VERTIGEM

SCENA IV

GABRIELLA e RAUL Raul

(Peralvilho, orchidea ao peito, entrando, a Gabriella, a quem beija a

mão) Oh! Gaby ! Felizes os olhos que a vêem! Gabriella

Meu caro Raul ! (mirando-o dos pés á cabeça) TfèS biCTl^

mesmo ires bien. (fazendo-o voltar) Sempre impeccavel, real- mente, sempre impeccavel o seu alfaiate ! Um figurino !

Raul

Uma parisiense a desdenhar d'um pobre alfacinha I E esse Paris?

Gabriella

Sempre o mesmo Paris ! . . . O Chico traz-lhe uma lembrança, sabe? Uma cabecinha de Cléo de Mèrode para berloque. . . Foi idéa minha.

Raul

Sempre gentil ! Beijo-lhe as mãos.

Gabriella

Então como o encontro aqui?

ACTO PRIMEIRO 19

Raul

Uma visita ao Luiz, ao nosso grande Luiz. Ha três mezes disseram-me : o Luiz abalou para a Itália. Nem uma palavra; nem vima lettra ! Soube depois que se tra- tava d'uma aventura. Sempre o mesmo D. Juan terri- vel, incorrigivel. Pensei n'uma hespanhola, o Luiz sempre teve um fraco pelas hespanholas. Informaram- me depois que upa, upa, se tratava de qualquer coisa mais raffinèe, um adultério, um escândalo. Emfim, uma mulher casada, um rapto a valer. Romântico, ro- mântico I Delirei ! iMas cnde parava esse Luiz e a sua victima? De repente, hontem, em pleno deserto do Chiado, ao regressar do Estoril, alguém me diz: o Luiz voltou. A mulher casada era . . . (rindo) Pobre Manuel ! Mal o conheço, mas emfim tenhc-o encontrado ás ve- zes ! E sem nada saber ! Começo a recordar-me de tudo. O Manuel, de facto, o grande Manuel, ha três mezes que não apparece. . . Suppunha-o fugido pára algum canto de provincia, eleito deputado, qualquer coisa de ignorado e de horrivel. E, afinal, Lisboa ha três mezes que não falia n'outra coisa e eu sem nada saber ! Idiota I E ainda ha quem diga que Lisboa é uma terra pequena ! E agora eis-me aqui para abraçar esse Luiz e vêr essa conquista.— É visivel essa conquista, não?

Gabriella

É preciso ser discreto, meu amigo I Trata-se d'uma paixão ...

Raul

Uma paixão? Loira? Xão? Romântico, romântico! (outro tom) Positivameutc, tive uma excellente idéa quando me decidi a vir hoje ver o Luiz, e depois, ao saber que elle não estava, a esperal-o aqui. Quando mais não

20 VERTIGEM

fosse, para ter o prazer de lhe beijar a mão, Gaby ! . . .

(aproximando-se mais de Qabriella) Com QUC CntãO, Uma Cléo dc

Mèrode pequenina?. , . (tomando-ihe a mão) Uma pequenina Cléo de Mèrode?

De berloque I

Qabriella

Raul

De berloque ! (intimo) E lembrar-me eu, Gaby, quando a conheci, antes do seu casamento com o Chico...

(completa a phrase com um gesto simulando uma pirueta de bailarina) Oh !

essa Cléo de Mèrode hei-de aprecial-a sobretudo pela deliciosa allusão que encerra a esses dolci tempi em que a conheci, Gaby,— com os seus bandós também, os seus maillots e as suas túnicas, deslisando como n'um vòo os seus soberbos bailados. . . M.'^'^^ Gaby, la belle Al- gérienne et son nègre . . .

Gabriella

(Fazendc-o caiiar) Raul ! É prcciso scr discrcto ! Quc maldito costume esse de estar sempre a gritar ! . . . La belle Algérienne ... vão oito annos ! (com galanteria)

Hoje vá, beije a mão (Raul beija a mão o.ue Gabriella lhe estende)

isso, assim, a A\adame Gamboa. . . E sobretudo,— hein ? nada de allusões a esse tempo, a essa Gaby et son nè- gre deante. . . (a^iontando na E. A. a porta por onde sahiu Maria

Eduarda) dcante delia. Oh I se o soubesse, fulminar-me- hia I Tem orrandes ares, sabe?

Raul Quem ?

Gabriella

Or^ quem ? A conquista do seu amigo Luiz. Um ar impertinente, desdenhoso, um geito de tratar as

ACTO PRIMEIRO 2 I

pessoas. . . Dir-se-hia uma virtude immaculada. . . Mas,, no meio de tudo isso, um especial dom de captivar, uma certa expressão, um certo abandono, que devem seduzir os homens, talvez. Confesso-o. Mas uma grande prosápia, quand même ! Se eu fosse homem, não seria o meu typo.

Raul Nem o meu.

Gabriella

O Raul ainda a não viu!

Raul

Mas é o mesmo, vi-a a si. E basta-me saber que é differente da seductora Gaby, para eu estar convencido de que a não poderia. . . emfim, de que me não poderia deixar seduzir por ella, sobretudo ao de si. (Qa-

briella sorri. Pausa. N'outro tom) É VerdadC, nUUCa Ih O pergun-

jei : o que foi feito do seu nègre, depois do seu casa- mento?

Gabriella

Voltou a ser branco. Supponho-o hoje estabelecido, muito bem estabelecido, n'um bello café em xMalaga.

Raul

E essa Gaby I . . . Lembrar-me eu que a conheci em Lisboa em pequena e que a famosa Algérienne não era mais do que a filha da antiga professora franceza de piano de minha irmã. . .

Gabriella

A famosa Algérienne . . . que nunca foi a Alger ! ... reper.tí. Mas, fschiu ! discrcção, hein ?

22 VFRTIOEM

Raul

Alas, primeiro, um beijo. . . um beijo. . . (diz-ihe qual- quer coisa ao ouvido)

Gabriella

(Depois de lhe dar na bocca uma pequenina par.cada com o leque, n'um sorriso provocante, estendendo-ihe o braço nu) Ac|UÍ... (Raul beija-a no braço. Um momento. Depois entram pela D. A. Francisco Qambôa e D. Luiz).

SCENA V

Os MESMOS, CHICO E LUIZ

Chico

i

(Do fundo, abrindo os braços a Raul) Olha, qUCm ? O Luiz,

olha quem? O illustre addido de legação, futuro barão de Salvaterra, vulgo o Salvaterrinha, o nosso ban- queiro ! . . .

Raul

Vim dar um abraço ao Luiz. (abraçando Luíz) Sei-tc em Lisboa desde hontem. O acaso indicou-me a tua nova morada, o acaso personificado no grande Miguel do Club, que a soube não sei como. E corri a desencan- tar-te !

Luiz

(Sem uma grande alegria) FamOSO ! (a Ciabriella) Maria Eduar- da ? Viu-a?

Gabriella

Está a aformosear-se para si. Foi vestir-se.

acto primeiro 23

Luiz Deixou-a só?

Gabriklla

Eu é que fiquei só, primeiro entretida a folhear uma illustração, depois a folhear o seu amigo Raul.

Chico

(Do lado) Qúe não é positivamente o que se chama uma illustração. . .

Raul

(Batendo no hombro de Luiz) EsSa Itália, marÔtO ! . . . (Chico do lado aponta-Ihe, como a recommendar-lhe discreção, a E. A. Raul mu- dando e batendo no hombro de Chico) EsSe PariS, traste ! (Chico aponta-lhe, comicamente, com o mesmo gesto, Gabrieila. Raul engasgado:)

Esse, essa . . .

Chico

(Completando e batendo-lhe também no hombro) Essa mania de fallar, filhinho ! (Raul e Chlco afastam-se um pouco, a conversar;

Luiz (A Gabrieila) Aborreceu-se muito ?

Gabriella

(Com a photographia: de Nini na mão, simulando fazel-o distrahida- mente, mas para que Luiz a veja) NãO. Entretive-me bem. Foram

uns segundos.

Luiz

(Tomando-lhe a photographia de Nini, vendo-a rapidamente, e largaií- do-a logo, também com o mesmo arde dissimulada distracção) SeriO?

24 VERTIGEM

Gabriella

(Com um movimento) Então não corrc a vêr a sua ama- da? Ella deve esperal-o inquieta!

Luiz

Está a vestir-se. E primeiro, Gaby, quero fazer-lhe um momento as honras da casa.

Gabriella

É preciso cuidado, mon chèr Làlú. A Maria Eduarda é muito ciumenta. o presenti. E tem razão para o ser. Três mezes ! uma lua de mel ! . . . É natural que ella não comprehenda por ora o que querem dizer as minhas liberdades de franceza e as suas sollicitudes de galanteador impenitente. E bom, por isso, não a ter de sobreaviso contra mim, que não quereria, nem por sombras, dar-lhe um desgosto ou merecer-lhe uma suspeita. Tanto mais, que me pareceu que não é muito do seu agrado vel-o perto de mim e, mesmo no Sud-Express, ia jurar que ella preferia que me não dis- tinguisse de vez em quando com tantas attenções. Faça- Ihe a vontade, Luiz. (com intenção) Peço-lhe. Bem sei que as suas galanterias nada mais significam do que restos dos seus velhos hábitos de bon vivant, habituado a tra- tar de perto mulheres e a agradar-lhes. Mas, quand mê- me, peço-lhe.

Luiz

Oh ! Gaby ! A Maria Eduarda é uma pessoa de es- pirito, superior a essas puerilidades.

Gabriella (Sorrindo) Por isso mcsmo, não a faça descer a ellas.

ACTO PRIMEIRO 25

Luiz E se eu me recusasse a satisfazer o seu pedido ?

Gabriella

(Coquette) Castigal-0-hia.

Luiz Como?

Gabriella

Não sei, mas castigal-o-hia . . .

Luiz ^

É quanto me basta : recuso.

Gabriella Faz mal pelo muito que lhe deve a ella, e por mim,

Luiz »

(Vendo que Raul e Chico Gamboa conversam de costas) Por si . . ^ (toma-Ihe a mão e beija-lh'a) por Si, nãO CrciO.

26 VERTlGEiM

SCENAVI

Os MESMOS, MARIA EDUARDA e AMÉLINHA

Maria Eduarda que entra vestida, pela E. A. com Amélinha, surprehende este movimento de Luiz e o ar apressado, mas coquet, com que Ga-

briella lhe retira a mão. Maria Eduarda faz um movimento para se retirar.

Luiz

(.Ao encontro de Maria Eduarda, entiegando-lhe um pequeno bouquet) As suas flores (Maria Eduarda agradece n'um sorriso; Luiz apresenta

Raul a Maria Eduarda) O iTieu amigo Raul Salvaterra.

M. Eduarda

(Para Luiz, depois de cumprimentar friamente Raul e Chico Gamboa)

Se soubesse que estavas aqui com os teus amigos não teria entrado . . .

Luiz

(Fingindo não perceber o remoque) SãO amigOS VelhOS. O

Chico é do teu conhecimento. O Raul é um amigo, quasi irmão. Teve a amabilidade de me vir vêr logo

que soube da minha chegada, (Maria Eduarda desvla-se um pouco com Amélinha, sem a apresentar)

Amélinha

(Baixo) Queres então que eu mande prevenir o Fer- nando de que não falte?

ACTO PRIMEIRO 27

M. Edjarda

(N'o mesmD t^m) Sim. Eu logo que esteja e que elle possa entrar, mando-lhe um bilhete. Não te esquece? Não?

AWÉLIXHA

Fica ao meu cuidado. Mando-lhe dizer em teu nome.

M. Edcarda (Alto) E agora não te quero reter mais tempo, minha

filha, (de novo em voz baixa, arrancando uma das flores que Luiz lhe deu

e entregando-ih.'a) Colloca-a na Cabecinha da minha Nini, sim? Sem lhe dizer nada. E dá-lhe um grande beijo por mim. Um grande beijo, ouves? (Amáiínha sae p^ia d. a.)

SCENA Vil

Os MESMOS, MEX05 AMELíXHA

M. Eduarda (Voltando á scena, para Luiz) Uma amiga minha. Veio vi-

Sitar-me. (vae para retirar-se)

Chico

Eu não vejo, com fraqueza ! Estou a cahir I Então esse famoso jantar no Hotel dos Grillos?

Raul No Hotel dos Grillos?

28 VERTIGEM

Chico

Sim, no verde campo, debaixo da latada, (para Luíz) O Raul banqueiro é dos nossos !

Raul

O diabo ! Hotel dos Grillos, de repente ! (olhando oa- brieiía) Mas tão boa companhia não se rejeita. Prompto para o romantismo !

M. Eduarda

i

Não contem commigo. O Luiz sabe. Estou fatigada. Depois. . . por todos os motivos, não !

Luiz

Mas, minha querida fiiha. . . três amigos apenas. E um pouco de ar livre. Tu precisas de respirar um pouco, (mais baixo) Vamos n'um automóvel fechado.

M. Eduarda

(Com firmeza) Não. uão. É melhor não.

Gabriella

(A Luiz) Ella me tinha dito. Não me atrevo a ins- tar-de novo.

Chico

Mas insto eu. (a Maria Eduarda) Sou O ITiais VClhO, SC

não houver ahi ninguém que entenda o contrario. Com esse direito, iembro-lhe, minha senhora, que o bucolis- mo é o ultimo refugio das almas verdadeiramente ena- moradas.

ACTO PRIMEIRO 29

M. Eduarda

Agradeço muito a sua lembrança mas tenho a certeza de que não farei falta, ás almas enamoradas. De resto o Luiz vae. (Luíz faz um gesto; Sou eu quem Ih o pede. Vae. De todas as maneiras, eu contava hoje jantar só. O Luiz vae, para me não obrigar, insistindo em ficar commigo, a ter de ir também constrangida.

Gabriella

(A Raul, apontandc-lhe Maria Ecuaria) Que tal ?

Raul

Uma archi-duqueza da Rua dos Fanqueiros.

Gabriella

Uma idéa ! Nós vamos indo adeante. São 7 horas. Passamos por casa a tomar um pequeno aperitivo. O sr. D. Luiz fica. (a Maria Eduarda) Tcnho a ccrteza de que elle, a sós, a demoverá da sua resolução, ma chè- rie. Vão os dois depois buscar-nos no automóvel. No caso de decidirem não ir, mandam-nos duas palavras, e fica o bucolismo para outra vez.

A\. Eduarda

Era melhor o Luiz ir já. Eu não faço o menor sa- crifício em fícar só. Pelo contrario.

Luiz

(Acceitando a idéa de Gabriella) Madame Gabv diz bem.

Eu fico dois minutos. Tenho a certeza de que a Maria Eduarda será razoável.

30 VERTIGEM

Gabriella

Três bien. ta Chico e a Raul) Vamo-Hos !

Chico

Eu não me tenho nas pernas ! Para aperitivo, se tomar. . . um beef I

Gabriella

(A Maria Eduarda) Minha cara amiga, até já, não é as- sim? (a um gesto de Maria Eduarda) TcuhO a Certeza. NãO Se

pôde resistir a um coração amado ! (com um suspiro) Eu

que o sei ! <Saem os três -Gabriella, Chico c Raul)

SCEXA VIII

MARIA EDUARDA e LUIZ Luiz

(Depois d'um momento) Porque uãO quizeste ir? (tomando-

ihe a mão) Sinceramente, contraria-te a ideia d'esse passeio? Eu próprio não a teria tido, se não estivesse conven- cido de que a ti mesmo, á tua saúde, convém sahir, convém uma pequena distracção. Estás ha dois dias fe- chada em casa. Comprehendo, comprehendo muito bem as tuas razões. Mas pareceu-me uma ideia bem inno- cente e bem discreta. Espero que me farás a justiça de acreditar que nem por sombras suppuz contrariar-te.

ACT^ PRIMEIRO 31

M. Eduarda

(Sem azedume) i\\as Seria bem natural— que era o nosso primeiro passeio em Lisboa e tu comprehendes

a minha... (vae a dizer ír/^/e, emendando a minha situaçãO

aqui, consuUar-me primeiro antes de o ter combinado com estranhos. Ter-me-hias assim poupado a desagradá- vel scena de ha instantes, em que eu pude passar perante terceiros por uma caprichosa ou... pelo que não sou.

Luiz

Mas não tive tempo. Foi uma lembrança d'hoje, de- pois de eu ter sahido de casa. Bem vês— para coisa tão simples, não são precisas vinte e quatro horas de preparação. Combinei-o ha pouco com o Chico, de pas- sagem.

M. Eduarda

Não foi bem isso o que me disse essa creatura que ahi esteve, Gabriella ou Gaby, como vocês lhe chamam, dando-me a entender que a idéa fora para lhe dar pra- zer a ella, e sublinhando com estranheza o facto de tu me não teres ainda prevenido. (n"outro tom) Mas não falle- mos mais n'isso. É uma coisa tão simples, tão trivial. Não vale a pena insistir. Não deves mesmo demorar-te. Não quero ter o ar de te prender.

Luiz

Nem por sombras I (indo dar-ihe um beijo) Não vou, sem ti.

M. Eduarda

Queres obrigar-me a ir, por força? Não. Tu me tinhas dito hontem que não jantavas hoje commigo.

32 VERTIGEM

Essa idéa do passeio veio-te depois. contava ficar só. Contrarias-me, ficando.

Luiz

(Depois d"um silencio) Minha qucrida Maria Eduarda, es- tranho-te. Estranho-te ha duas ou três semanas ; estra- nho-te sobretudo desde que chegámos a Lisboa, (com mei- guice) E estranho-te commigo. Dir-se-hia que não sou para ti o mesmo.

M. Eduarda

A commoção da jornada, a commoção de tudo isto ! Achas pouco ? (sem sinceridade) Perdòa-me.

Luiz

Não. Escondes-me qualquer coisa no teu coração. Os meus beijos te não bastam, os meus braços não te chegam. Ah ! não me dês a desillusào de o pensar !

(mostrando-lhe a photographia de Nini) TiveSte nOticiaS de tua fi- lha ?

Tive.

De tua casa?

Sim.

Procuraste tel-as?

M. Eduarda Luiz

M. Eduarda Luiz

M. Eduarda

De minha filha, sim. Estava doente. De minha casa^ não. É-me indifferente.

ACTO PRIMEIRO 33

Luiz

É-te indifferente,— mas foi no emtanto por isto, e por isto, que tu tiveste o capricho de vir immediata- mente para Lisboa, de deixar tudo, de correr para Por- tugal, contra todos os projectos de nos demorarmos muito mais tempo fora— projectos que ha três mezes tanto te enthusiasmavam e tu dizias serem -<■ o melhor dos teus sonhos >.— Tu suppões que eu não percebo ou não quero perceber? E no emtanto, vim, fiz-te a von- tade. Para quê?

M. Eduarda

(Brandamente) Para que havemos nós de insistir n'isto?

Luiz

Porque n'isso está a explicação da tua mudança de attitude para commigo, que resiste a todas as minhas at- tenções e que, que diabo ! —perante os outros, mesmo perante es meus amigos, me fere, porque é demasiado clara. . .

M. Eduarda E que têm os teus amigos comnosco ?

Luiz Nada. Mas que tens tu contra elles?

M. Eduarda

Tudo. (com dignidade) Não, eu não quercria tocar-te n'este ponto. É demasiado delicado. Eu não quereria en- trar comtigo n'esta discussão, muito menos a propósito -d'esse passeio. . .

34 vertigem

Luiz

(interrompendo-a) O passcio é apeiias um incidente...

M. Eduarda

(Continuando) . . . Mas és tu proprio qucm me obriga a fallar. Não ! Os teus amigos nada têm comnosco e eu acerca d'elles tenho apenas. . . o direito de não os querer conhecer. Desculpa invocar este direito para te pedir o favor, o especial favor, de não me fazeres alvo da curiosidade dos teus amigos, nem me dares, como distracção, a sua dispensável companhia.

Luiz

Cs meus amigos ! Dois, um dos quaes tu co- nheceste por acaso e o outro... tenho eu porventura culpa de que viesse aqui, de que te encontrasse ?^ Por Deus ! Fazes então idéa de viver sempre encerrada n'uma cella, tu e eu ?

M. Eduarda

(Rapidamente) Não. A porta da cclla está aberta para ti. Sou eu própria quem ta abre !

Luiz

(Mais brando) Perdôa. Mas é preciso dominar esses nervos e esses caprichos. Eu não posso ter-te n'uma re- doma !

M. Eduarda

Nem eu t'a pedi. Mas o que suppunha ter direito era. . . a merecer-te a consideração de n^o me nivella-

ACTO PRIMEIRO 35

res a creaturas que eu nunca quizera conhecer, fazendo assim ao meu orgulho a otfensa de me lembrar, com demasiada crueldade, que eu sou apenas. . . tua amante. Tua amante, sim ! Ao acceitar sel-o. ao trocar tudo, tudo, tudo o que perdi por ti, abandonei a consideração da sociedade em que vivia, mas não desci até á humi- lhação de ter de acceitar. . .

Luiz (Compietanco; A socicdadc em que eu vivo. É isso?

M. Eduarda Xão, mas a sociedade de pessoas como. . .

Luiz Como?

M. Eduarda

(Dominando-se) Nào, uão, basta. Não prosigamos. Para quê? Arriscamo-nos a entrar em recriminações, e eu não tenho, não quero ter o direito de as fazer!

Luiz

O que é que te belisca então no teu orgulho ? Quero sabel-o, para evitar melindrar-te.

M. Eduarda

A tua pergunta é uma nova offensa ! Como se tu não tivesses obrigação de o adivinhar antes de eu t'o dizer! O que me magoa, o que me doe, é tudo isso que sinto entre nós. . . É tudo isso ! É sentir que desci para ti, que desço aos meus próprios olhos e que és

36 VI:RTIQEM

tu quem me ajuda a descer ! É sentir que de objecto do teu amor, que sonhei, passei a ser objecto da tua vaidade ! É sentir que não sou a mesma, que ha creaturas, que creaturas ! que têm o direito de me olhar como sua egual, e que, perante ellas, eu não tenho o direito de corar ! É sentir que és tu mesmo quem me eguala a essas creaturas. . .

Luiz Maria Eduarda !

M. Eduarda

Sim, deixando-me tratar com ellas, introduzindo-as em minha casa e não me poupando sequer á affronta de distribuir entre mim e ellas as tuas attenções e, ás vezes, mais do que as tuas attenções, como ainda ha

pouco, aqui, (apontando o logar em que Luiz beijou a mão de Gabriella)

aqui mesmo. . .

Luiz Não te entendo. Agora não te entendo !

M. Eduarda

Não, não ponhas entre nós a covardia d'uma dissi- mulação ou d'uma mentira! Para quê? (abandonando-se a

uma commoção crescente) Poupa-mC SL tudo ÍSSO, Luiz ! Bem

sei, comprehendo agora que é assim, que a vida é isto, que eu sou isto ! Não era isto, no emtanto, o que tu me promettias, não, era isto a paixão com que eu te segui, não era isto eu própria, antes de ser. . . o que sou hoje ! Mas a vida é assim, é assim ! Deixa no emtanto ao meu orgulho a coragem de querer viver acima de mim mesma. V^ive tu a tua vida! Não a perturbes por mim. Não te prendas, não faças de mim um embaraço !

ACTO PRIMEIRO 37

Mas deixa-me ficar commigo, defendendo-me de mim própria. . . a amar em ti, se é possivel, o homem que tu me fizeste amar ! Deixa-me, ao menos, o gosto inef- favel do sacrifício, se é isso apenas o que para ti resta do meu amor I

Luiz

(SeiTi_ severidade, mas sem commoção, como a acalmal-a) XerVOS !

Nervos ! . . . Romances I Romances ! A vida não são os teus nervos, a vida não são romances I \ amos ! Uma scena por uma pieguice ! Exageros, nervos ! (Pequeno si- lencio. Constrangimento da parte de Luiz. Maria Eduarda chora um choro reprimido, quasi sem lagrimas)

SCEXA IX

MARIA EDUARDA, LUIZ e CHICO Chico

(Apparecendo á i:orta da D. F., vae para entrar. Detem-se um momento, embaraçado. Depois) O Luiz I O fílhinho ! DcSCUlpa ! SuppU-

nhamos que tivesses que diabo ! que tivesses mor- rido ! Estamos á espera. Então, hein ? (Convida-o a sair e

apontando para Maria Eduarda com um gesto que diz coisas de mnihe- res, menino !r)

M. Eduarda

(Que se tem reprimido, procurando dissimular, mas ainda bai:;:, a Luiz)

Vae, vae. E melhor, (com intimativa) Vae. Quando voltares,

isto passou. Vae. SupplÍCO-t'0. (Luíz pega no chapéu para sair)

4

38 VERTIGEM

Chico

(Que, emquanto Luiz esteve junto de Maria Eduarda, aproveitou a oc- casião para tirar d'uma charuteira dois ou três charutos, -para Luiz)

Ó filhinho! Sempre te digo. Desculpas, hein? Tu vaes prevenido, hein? É que eu. . . esqueci-me da carteira; o Raul é homem para se esquecer também, como todos os homens ricos, nas occasiões. Desculpa-me lembrar-te. Inter amícos. . . Tens tu ahi um charuto? (Saem os dois.

Maria Eduarda fica uin momento só).

Luiz

(Vcltar.do atraz, aproximandc-se vagarosamente de Maria Eduarda)

Então ? É uma pieguice tua ! . . .

M. Eduarda »

(No mesmo tom de ha pouco) Vac. SupplÍCO-te. TudO O que

tu quizeres, mas poupa-me ao ridiculo. (implorando) Vae 1

(Luiz, depois de a olhar uns segundos, encolhendo ligeiramente os hombros, sae,— Depois de elle sair, Maria Eduarda levanta-se, enxuga os olhes, vae á secretária, escreve duas linhas n'um papel, toca a campainha. A creada entra.

SCENA X

MARIA EDUARDA e a CREADA

M. Eduarda

(Entregando-ihe a carta) Esta carta para O seu destino, aqui perto, como. . . como a de pela manhã.

ACTO PRIMEIRO 39

A CREADA

(Com um sorriso malicioso) Sim, minha scnhora. Tem res- posta ?

M. Eduarda

(Depois de hesitar um instante) KãO. (Maria Eduarda, ficando só, beija mais uma vez a photographia de Nini, depois vae ao espelho, compõe- se um pouco, abre a janella, entretém emfim o publico durante segundos n'uma curta scena mimica)

A CREADA

(Entrando de novo) A carta foi. A scnhora não tem mais nada a mandar-me?

M. Eduarda Não.

A CREADA (Depois de um movimento para se retirar) Eu Sempre QUerO

dizer á senhora... A senhora dá-me licença? A se- nhora pode ter a certeza, a Leocadia é uma rapariga... emfim... quero dizer... o que passa por mim... Digo eu na minha, tenho servido em muita casa e sempre mereci a confiança das senhoras. . .

M. Eduarda

(Vexada, seccamente) Está bem, cstá bcm. para a sua vida.

A CREADA

(Insistindo, no mesmo tom) Ha-dc vir alguem, minha se- nhora ?

M. Eduarda

(Sem olhar) Ha-dc. t

40

E... e.

E.

VERTIGEM

A CREADA

e. . . e?

M. Eduarda

0 quê?

A CREADA

(Com intenção, sem se desconcertar) E a SCnhora nãCJ QUCr

que diga nada ao guarda-portão ? Mando entrar logo para aqui?

M. Eduarda

De certo. (A Creada vae a sair. Interrompendo-a) E nãO é prC-

ciso mysterios, entende? Se nas suas antigas casas os aprendeu, não precisa de usar d'elles aqui.

A CREADA

(Seccamente) Sim, minha senhora, (formaiisada) A senhora

tenha a bondade de desculpar. (Sae. Fernando apparece á porta D. A.)

SCENA XI

MARIA EDUARDA e FERNANDO

M. Eduarda

(Commovida, ao encontro de Fernando) ComO ? ?

Fernando

Sim, minha exceliente amiga. O tempo de receber as suas duas palavras, e aqui estou.

ACTO PRIMEIRO 41

Ainda bem !

A\. Eduarda

Fernando

(Fazendo o movimento de quem destraça de sobre os hombros uma capa)

Onde hei-de pousar a minha invisível capa. . . de Ro- meu ? Positivamente, hei-de escrevel-o ao meu philoso- pho : a amisade é, em certos casos, tão suspeita como o amor ! O seu bilhete d'esta manhã pedia-me afflictiva- mente para estar aqui ás sete horas.

M. Eduarda

Sim, Alas eu tinha de o prevenir de quando podia subir.

Fernando

É certo. E, por isso mesmo, desde as sete horas que, como um namorado fiel, postado a uma esquina, eu aguardo um signal uma luz por traz d'uma vidraça, o aceno d'um lenço, um bilhetinho. . . De repente vejo que alguém sae... Occulto-me, como Lovelace. Espio, perscruto... No horizonte descubro um moço que desce estas escadas vou ao seu encontro, arranco-lhe das mãos a sua carta, subo, entro. . . e, perfumado de mysterio, como n'um idyllio, aqui metem... Minha cara amiga, confessemos que as apparencias compromet- tem d'esta vez, bem singularmente, o mais innocente dos amigos !

M. Eduarda

Oh ! Fernando ! Nem o vêr-me, nem a lembrança de tudo o que se tem passado, conseguem perturbar a sua jovialidade !

42 VERTIGEM

Fernando

Engana-se, Maria Eduarda. É que eu preciso de me desculpar perante a minha própria consciência das im- prudências que, por sua culpa, ambos acabamos de pra- ticar. Porque precisamos de confessar que estamos os dois singularmente compromettidos, um em face do ou- tro, com a ideia romântica d'esta entrevista, em tão estranhas condições. Emfim, eu não quiz recusar-me ao seu pedido, ao seu desesperado pedido para que viesse vêl-a. Pensei, primeiro, em lhe mandar duas linhas sen- satas. Seria mais natural encontrarmo-nos na rua. . .

M. Eduarda

Na rua, como? Se eu não sairei?

Fernando

Aqui mesmo, emfim, mas sem este ar diabolica- mente dom juanesco.

M. Eduarda

É-me indifferente ! Não ha nada no mundo que me comprometta.

Fernando

Diabo, diabo ! Esse seu velho sestro romântico ! faltou a escada de corda presa á janella ! Emfim, deve haver uma forte razão, uma urgente razão, da sua parte, para fazer entrar n'esta casa, em taes condições, um velho amigo seu e de seu marido, no fim de três mezes, no fim de tudo o que aconteceu. Não quiz dar- Ihe o direito de suppor, depois de tudo isso, que havia qualquer melindre que me detivesse.

ACrO PRIMEIRO 43

A\. Eduarda

Como lhe agradeço, Fernando I Como me commove vel-o a si, tão delicado, tão bom, tão alegre, e que eu sempre encontrei, desde pequena, junto de mim. . .

Fe RX AN DO

(Enternecido) Vamos 1 . . . \ão fallemos no que vae ! O que importa é que eu estou aqui. Temos por certo de fallar.

^\. Eduarda

Fernando ! Diga-me sinceramente, como se fallasse a uma sua irmã: é verdade que eu sou muito culpada? Muito, muito culpada?

Fernando

Lembro-lhe, minha cara Maria Eduarda, que, em- bora tendo entrado com as mais suspeitas apparencias, eu vim aqui sujeit?mdo-me a tudo, até ao mais desagra- dável dos encontros,— mas vim como amigo, (sorrindo) e não como confessor !

^^. Eduarda

Mas para o que tenho de lhe dizer, eu preciso pri- meiro que me responda. Diga I Falle 1 Eu não me of- fenderei !

Fernando

Bem, Maria Eduarda. Ha para nós, homens, duas classes de muiheres.no mundo. Pelo menos, para mim. Aquellas que o Destino fez para nossas irmãs e nossas mães e essas são naturalmente intangíveis e aquellas,

44 VFRTIQEM

todas as outras, que Deus nos deixou para olhar com olhos de peccado. A indulgência para estas pôde ser, feita por nós, de condescendência, de galanteria, dei cavalheirismo, e é-nos vedado tccar-lhes para as julgar, mesmo com uma flor, quanto mais com uma palavra cruel. As outras, porém, as que para nós estão fora das susceptibilidades do seu sexo, feitas d'uma massa diver- sa, pertencendo a uma outra ordem moral, têm direito mais do que a essa espécie de indulgência têm di- reito á nossa severidade. Maria Eduarda, fui educado vendora ser por minha mãe estimada como se fosse mi- nha irmã. Via-a entrar assim, em nossa casa, depois da morte de seus pães, confiada, como pupilla, á guarda e ao carinho dos meus. Assim, embora de longe, a vi casar; como irmão, a vim encontrar, mais tarde, ca- sada, e d'essa espécie de affecto fraternal fiz a estima que me uniu ao seu marido e o primeiro beijo que de- puz no berço da sua filha. . . Não, Maria Eduarda! O seu coração tem* direito á minha severidade. E que appella para ella, dir-lhe-hei : sim, julgo-a tão culpada quanto uma mulher pôde ser.

M. Eduarda

(Anniquiiada) O Fcmando, mcu amigo! Mas que sabe o seu coração de tudo o que se passou?

Fernando

Nada, o bastante.

M. Eduarda

Se o Fernando soubesse! Se o Fernando soubesse! Quanto tempo eu hesitei, eu soffri, eu me venci ! O Ma- nuel, meu marido, vivia junto de mim, mas não soube, não quiz, não poude vir em meu auxilio ! E, no emtanto,

ACTO PRIMEIRO 45

uma palavra (relle, um conselho n'es5e momento, bac- tariam talvez para me salvar! O que eu era! As des- vairadas coisas que eu tinha dentro de mim ! Os homens pensam tão pouco em nós, mulheres, quando para nos enclausurar, para nos callar, para nos vencer entendem que lhes chega essa simples palavra : o dever ! E, apesar d'is50, Fernando, no dia em que cahi, quiz cahir eu só. Em vez de enganar acceitei a minha falta á clara luz do dia! Quando podia ter ficado, bastando-me para isso o lodo d'uma mentira de todos os dias, preferi aban- donar a minha casa, a minha honra, o meu passado, fugir ! E isto não é um titulo que, pelo menos pe- rante Deus, me rehabilite de todo o mal que lhe tenha feito a elle, a meu marido?

Fernando

A seu marido, é possivel. Se não houvesse, minha amiga, senão seu marido, a nobreza do seu sacrifício, que foi completo, teria resgatado a sua culpa que, co- mo todas as culpas d'amor, tem infinitas absolvições. Mas ha alguém mais : ha sua filha . . .

M. Eduarda

(Enternecida) Minha filha I

Fernando

E se uma mulher pôde ter, por vezes, perante a sua consciência, o direito de sacrificar a um ideal, que é sempre ephemero e sempre o mesmo ideal d'amor cri- minoso, o seu lar e o seu marido uma mãe, Maria Eduarda, uma mãe nunca tem esse direito, ou o con- quista em troca da abdicação da sua divina missão ma- ternal !

46 VFRTIGEM

M. Eduarda

Chorando) Fcriiando ! Fernando! Cruel, cruel, que cruel é para mim !

Fernando

(Depois de um silencio) Peço-lhc infinitos perdõcs. Res- pondi á sua pergunta, como me pediu, como respon- deria a uma irmã verdadeira. E agora, que estamos um em face do outro mais á vontade, esqueçamos o que eu disse. Estou aos seus pés, Maria Eduarda, para a ouvir, não como um juiz Deus do Ceu ! mas como um peccador, o mais peccador dos seus amigos, o que melhor lhe sabe perdoar, e melhor a saberá servir.

M. Eduarda

Sim, é tudo verdade ! O Fernando tem razão. Sou muito culpada, a mais culpada das mulheres, se quizer!

Mas SOffrO, SOffrO muito, (apoz um momento, levantando-se e to-

mando-ihe a mão) Eu qucro vêr, qucro beijar a minha filha ! Era isto o que tinha a pedir-lhe. Foi para isto que lhe pedi que viesse aqui. Por tudo quanto ha, pela memo- ria de sua mãe, Fernando, consiga-me isto ! . . . A mi- nha filha esteve, está doente! . . . Quando eu o soube em Paris, o que soffri ! Imaginar que morria, que ella podia morrer sem eu lhe pedir perdão que a não via mais! O desvairamento em que corri, em que deixei tudo ! E, agora aqui, as minhas duvidas, as minhas incertezas ! Parece-me qire morro se não a vejo uma outra vez, uma vez mais! Isto não se nega ao ultimo dos criminosos!

Fernando

Mas sua filha está melhor, está bem, pôde dizer-se. A sua doença foi uma crise de creança, uma coisa de

ACTO PRIMFIRO 47

nada. 'pausa) Em verdade, Maria Eduarda, ha uma coisa que n'este momento faz mal, muito mal á sua fi- lha. . .

M. Eduarda (Affiicta) O que é?

Fernando A sua presença em Lisboa.

M. Eduarda

Como? Mas em que é que a minha presença a pôde incommodar, Deus meu ?

Fernando

Directamente, em nada. Indirectamente, em muito. A sua presença em Lisboa, três mezes depois do que se passou, é o escândalo, e o escândalo que tanto abrange o nome do seu marido, como o futuro da sua filha, que mais tarde lh'o não perdoará! Para. . . para actos como o seu, ha uma espécie de perdão verda- deiro : o esquecimento. Creia-me.

M. Eduarda

Condemnam-me então ao desapparecimento ? Ao d^sapparecimento. peior do que a morte ?

Fernando

Ao desapparecimento, não ; mas ao esquecimento de algum tempo.

48 VERTIGEM

M. Eduarda

Ao esquecimento. . . Ao esquecimento. . . E quem m'o pede? Ah! isso não pôde ser seu! Sinto, adivinho que isso não é seu, não é seu, Fernando ! Querem o esquecimento, o peior dos castigos, a maior das tor- turas ! . . . Com que direito ? Isso não pôde ser seu ! (oihando-o nos olhos, fixamente) Respouda-mc, mcu amigo : meu marido soube da sua vinda aqui?

Fernando

(Com simplicidade) Naturalmente. Era do meu dever di- zer-lh'o.

M. Eduarda Elle sabe então da minha chegada a Lisboa? (Fernando

faz com a cabeça um signal a^firmativo) ComO ? FoÍ O Femaudo

quem lh'o disse?

Fernando Não.

M. Eduarda

Quem, então?

Fernando

Não sei. Toda a gente, talvez. A Maria Eduarda tem a ingenuidade de suppôr que essas coisas não se sabem ? Depois, ha alguém que tem sahido, que se tem mos- trado. Ah ! era fácil desvendar esse mysterio todo !

M. Eduarda

E então, é elle, elle, não é verdade?— que o encar- rega de me fazer esse convite. . . ao desapparecimento?

ACTO PRIMEIRO 49

Fernando

Não. É por meu intermédio, apenas, que elle lhe lembra esse dever.

M. Eduarda

Não ! Entende ? Não! Nunca! Longe da minha filha, não. Mizeravel, desgraçada, desprezada,— quero, ao me- nos, sabel-a perto de mim, embora. . . embofa a não veja, embora ella não saiba de mim I (com um accento dolo- rosíssimo) É tudo o que me resta, Fernando, é tudo o que me resta na vida !

Fernando

< Depois de a ter olhr\do r.m memento) TudO?

M. Eduarda

(No desespero) TudO !

Fernando

(Como faiiando para si) Oh ! Em tres mezes í A eterna mentira, a eterna seducção, a eterna desillusão que é o amor !

M. Eduarda

Fernando ! É horrível ! E fui eu que lhe pedi a si para vir aqui I E que vae ser de mim ? E impossível !

^ Fernando

É a sua filha que lh'o exige. E ella que lh'o agra- decerá. Lembre-se d'isto !

50 VERTIGEM

M. Eduarda

(Debatendo-se) Nào posso ! Não posso ! Eu sei O que soffri, sei o que soffreria. . . E agora então!

Fernando

É a melhor forma, é a única forma que lhe resta de amar a sua filha ! É esta ! (persuasivo) Vamos ! Maria Eduarda] E preciso. Não sairei d'aqui sem a sua pro- messa.

M. Eduarda (Mais quebrada já) Ir-me outra vez cmbora ? Como?

Para quê? (Pausa. Numa súbita resolução) E, CUSte ÍSSO O qUC

custar, entende, Fernando, em sua consciência, que as- sim conseguirei o direito a ser perdoada... porella... mais tarde?

Fernando

Tenho a certeza de que o pae a ensinará a respei- tal-a, minha amiga !

M. Eduarda

A respeitar-me ? Tem razão, tem razão ! Seja ! Desapparecerei, se é preciso. Irei para longe. (n'uni súbito desespero) Mas sem a vêr uma ultima vez, ao menos? (Fernando não responde) Scm a vêr, diga-me, uma ultima vez, ao menos?

Fernando

(Depois d'uma hesitaçãc) NãO. Vcl-a-ha.

M. Eduarda Uma ultima vez?

acto primeiro 51

Fernando Céus! Uma ultima vez,— por agora.

M. Eduarda Sim. E. . . quando?

Fernando Quando. . . quando quizer.

M. Eduarda

Quando quizer?. . . Mas eu quero já, já! Vêl-a no seu leitito de convalescente, já, já! isso me dará for- ças, só isso m'as dará! Mas ha-de ser agora! Sinto-o. Preciso.— Minha filha!

Seja.

Fernando M. Eduarda

(Com um súbito lampejo de alegria ncs olhos) AlaS . . . COHIO ?

em casa? E. . . elle?

Fernando

Quem ? Manuel ? Sei que, em troca da sua sahida immediata de Lisboa, o consentirá. E se esse é o preço da sua sahida, não poderá negar-lh'o a si— nem a mim. De resto, elle entregou-se nas minhas mãos.

M. Eduarda

(Levantando-sei MaS eutãO, CU VOU ! (correndo para o botão

da campainha) A crcada ! Eu qucro outro vestido ! Vêr a

52 VERTIGEM

minha filha ! (voltando atraz) Não, não é preciso ! (arrancando o 'ramo de flores do peito) FioreS, nãO ! lindo ao espelho) É preciSO

que ella, a minha lindinha, me ache bonita, (pondo um cha- péu, uma echarpe, voltando atraz para ir buscar á mala a caixa com a bo- neca) É preciso levar-lh'a. Vae ficar contente ! (esbarra com

Amélinha que entra)

SCENA XII

MARIA EDUARDA, FERNANDO e AMÉLINHA

A.MÉLINHA

Vinha . . . Volto atraz para buscar a photographia de

Nini que me esqueceu ha bocado, (sem ver Fernando, mais baixo)

Olha, o Fernando não estava em casa. (Maria Eduarda

mo£tra-lhe Fernando) Ah 1

M. Eduarda

A photographia de Nini ? Toma-a. Leva-a tu ! Le- va-a tu! (aito. indecisa) Mas prcciso de deixar duas pala- vras. . . Sim. Duas palavras. . . (vae á secretária para escrever um bilhete a Luiz. Entregando a caixa da boneca a Fernando) TomC. Lc-

ve-a.

Fernando

(Que tem assistido a tudo istc sem coragem de intervir, risonho e com- movido, sem se poder oppôr, segura a caixa da boneca, emquanto Maria Eduarda escreve o bilhete que deixa dobrado, bem á vista, em cima da se- cretária) E digam que as apparencias não illudem ! Dir- se-hia que levo esta mulher á sua primeira entrevista damor !

DESCE o PANNO

ACTO II

Sala em casa de Manuel. Mobília severa, luxuosa. Porta ao F., dando para um jardim. Portas aos lados. Um piano. Sophá. Poltronas.

SCENA I

SILVESTRE PAIXÃO e a CREADA

Ao abrir o panno, SIV^ÉSTRE PAIXÃO, t>'po de guarda-livros, barbicha descuidada, magro, recebe das mãos da CREADA vários jornaes d'onde recorta sellos. A CREADA colloca sobre a mesa uma cesta com flores, que começa a dispor nas jarras da sala.

Silvestre

Muito obrigado. Está aqui um sello do Uruguay, precioso.

A CREADA

D'onde, sr. Paixão ?

Silvestre

Do Uruguay. E muito longe. Como, diabo é que o sr. Manuel tem correspondência do Uruguay ? (deita na mão da CREADA uma moeda) Olhe, menina JuHa, não se es- queça do meu pedido das caixas de phosphoros.

54

VF.RTIGEM

A CREADA

O sr. também coUecciona caixas de phosphoros? Silvestre

Vazias. Sim, menina, collecciono. É por causa das figuras. Tenho uma collecção de quasi todas as co- cottes de Paris.

A CREADA

Das. . . quê?

SlLVÉSlRi (Entretido a guardar os sellos n'uma caixa) CoCOtteS. É Uma

espécie de mulheres que ha fora. . .

A CREADA *

(A dispor as flores) Diffcrcnte das outras mulheres?

Silvestre

Eu não sei, menina Júlia. Nunca as vi . . . senão nas caixas de phosphoros. Alas supponho que têm pontos de contacto. . .

A CREADA

Credo! Que porcaria! E o sr. collecciona isso?

Silvestre

Collecciono eu e um outro empregado do escri- ptorio. Depois, com os elásticos, faço carrinhos de mos- cas para os pequenos. (Levantando-se) o sr. Manuel ainda não perguntou por mim ?

ACTO SEGUNÍDO 55

Não senhor.

A CREADA

Silvestre

Bem. SafO-me. Volto já. (N'um movimento para sahir) Sc

a minha mulher, a sr.^ D. Amélia, vier antes de eu che- gar, diga-lhe que fui buscar a encommenda que ella me fez para a senhora D. Maria Eduarda, para a menina, sim ?

A CREADA

(Apontando a E. A., atarefada) Deixa-me andar depressa. A sr.^ D. Elisa não tarda ahi. Parece-me que a ouço.

Silvestre (Voltando atraz) Dcvc andar muito triste, hein ?

A CREADA

Quem ?

Silvestre

A sr.^ D. Elisa. O sr. Fernando Lino ha dois dias que não apparece.

A CREADA

Anda como de costume. Mas madruga. Hoje, pela manhã, antes das nove horas, sahiu sósinha com um véu que lhe tapava a cara toda. Desde que está em Lisboa, ha três mezes, foi a primeira vez. Voltou logo de carro e o seu primeiro cuidado foi saber se alguém tinha perguntado por ella. Por mais que me digam . . .

56 VERTIGEM

Silvestre

(Rindo) Com que então ás nove horas da manhã?. . . Ora adeus ! O sr. Fernando Lino se não vem ha dois dias é porque naturalmente não está em Lisboa. E depois. . . ás nove horas da manhã se fosse para

commungar !

A CREADA

Não me salve Deus se ella não trazia olhos de pec- cado ! Parece que não quebra um prato e o procu- rador da sr.^ Marqueza, da mãe do sr. Manuel, quando aqui esteve, contou-me d'ella coisas bonitas. . .

Silvestre está a lingua !

A CREADA

Não é lingua. Parece que traz a virtude na bar- riga, falia de papo á sr.^ D. Maria Eduarda, e afinal...

Silvestre

(Sentindo que ELISA se aproxima) AbrenunCÍO ! dizCr ÍSSO

ao sr. Fernando Lino. Não se esqueça das caixas de phosphoros, menina Júlia. E obrigadinho, muito obri-

o^adO. (Sae)

ACTO SEGUNDO 57

SCENA II

ELISA E A CREADA Elisa (Entrando) O Quarto para a sr.^ Marqueza está

A CREADA

prompío ?

Já, sim, minha senhora. A sr/"^ Marqueza chega hoje?

Elisa

(Ageitando e compondo as flores dispostas pela CREADA) PÓdc

chegar d' um momento para o outro. Nada custa ter tudo em ordem. Não se esqueça : na cama, a colcha de seda azul, sabe?

A CREADA

Sei sim, minha senhora.

Elisa

E as janellas bem abertas. A sr.^ Marqueza gosta muito de ar. Eu depois vou vêr tudo, mas tenha cui- dado. É preciso que nada falte.

A CREADA

V. Ex.^ pôde estar deSCançada. (Acabando de collocar as flores) V. Ex.^ não quer mais nada ? (Vae para sair).

5jg VERTIGEM

Elisa

vieram da pharmacia os remédios que o sr. dr. receitou hontem para a menina?

A CREADA

(Um pouco embaraçada) NãO, minha Senhora. (FERNANDO ' apparece e pousa a um canto a bengala e o chapéu).

Elisa

(Sem vêr Fernando) Porquê ?

A CREADA

Foi. . . foi a sr.3 D. Maria Eduarda que disse que, ' como o sr. dr. voltava hoje, era melhor não renovar as receitas até elle vir.

Elisa

(Depois d'um silencio) Diga ao Joaquim que buscar os remédios. O dr. disse que não deixasse de os dar á doente. Disse-m'o a mim.

A CREADA

(Hesitante) Mas é preciso ir ao quarto da menina bus- car a receita. Está lá, naturalmente, a sr.^ D. Maria Eduarda . . .

Elisa

(Vendo FERNANDO) Ah ! MadrUgOU hojC ? (Para a CREADA)

Faça o que lhe digo. (A creada sae)

ACTO SEGUNDO 39

SCENA III

ELISA E FERNANDO

Fernando Chego n'este momento do comboio.

Elisa Fugido ha dois dias, hein ?

Fernando

Uns negócios de creados e de rendas que me pren- deram na quinta, em Villa Franca. Hontem recebi um telegramma do Manuel que me assustou. Dizia que era urgente fallar-me, pedia-me para estar hoje em Lisboa. Alguma novidade?

Elisa

Nada que o sr. não saiba.

Fernando Nada ?

Elisa

Nada. Depois d'aquella noite horrivel em que Ma- ria Eduarda aqui entrou comsigo, a Nini, que subita- mente peiorára, começou também subitamente a melho- rar. A febre parece que lhe passou. A Maria Eduarda não abandonou mais o leito da pequena.

60 VERTIGEM

E Manuel ?

Fernando

Elisa

Depois d'aquella scena que o sr. presenciou, á chegada, não voltou a fallar á mulher. Não tem ido mesmo ao quarto da filha. Sabe por mim e pelo me- dico o que se passa. Supponho que os dois, marido e mulher, se não terão avistado mais que duas ou três vezes n'estes dois dias e isto mesmo, de passagem, no corredor ou aqui.

Fernando Não fallaram, então?

Elisa Creio bem que não terão trocado duas palavras.

Fernando

Maria Eduarda pensa em . . . ficar ?

Elisa Nada sei.

Fernando

E quaes são as disposições de Manuel para com. a mulher?

Elisa

Ignoro-as absolutamente. Posso mesmo asseverar-lhe que, de tudo o que se passou, conservo eu própria

ACTO SEGUNDO

uma recordação confusa. Essa entrada aqui de Maria Eduarda comsigo, o súbito febrão que tomou a pequena dir-se-hia que morria ! o delirio que accommetteu a mãe, depois essa scena horrivel, quasi sem palavras, á beira da cama da pequena, e os dois dias que têm passado até hoje, tudo isso, dá-me a impressão d'uma vertigem ! (Pausa) Hoje ou amanhã deve chegar a mãe de Manuel, a sr.^ Marqueza.

Fernando

Vem pelo que se passou ? sabe tudo ?

Elisa

Xão sei. Supponho, no emtanto, que a sr.^ Marqueza tinha destinado ha dias vir a Lisboa. O medico, an- tes mesmo d'estas ultimas peioras, aconselhara á Xini uma rápida mudança para o campo. Creio que Manuel escreveu n'esse sentido á mãe, que resolveu vir, ella própria, buscar a pequena. E ainda bem que escolheu esta occasião I

Porquê

Fernando

Elisa

Irei com ella para Sousa. Acompanhal-a-hei no re- gresso.

Fernando

Sério ?

Elisa

Sério. A minha missão aqui está cumprida, ao me- nos por agora. \'im para esta casa, porque a minha

62 VERTIGEM

madrinha, a sr.^ Marqueza, m'o pediu, para servir de mãe a esta pequena e acompanhar o pobre Manuel. Agora, Maria Eduarda voltou. Que tenho eu mais que fazer aqui? Volto para o meu logar, junto da sr.-"^ Mar- queza que me educou e que precisa de mim. Não acha tudo isto natural ?

Fernando

(Olhando-a demoradamente) Natural ? Sim, é pOSSlvcl. MaS

nem por isso deixa de me surprehender. . .

Elisa

(Depois d'um silencio) Quer quc CU prcvcuir Manuel da sua chegada ?

Fernando

Não. Por emquanto, não. É muito cedo. (aproximan- ao-se de ELISA) Eu mcsmo preciso de ter comsigo uma explicação.

Elisa

Commigo?

Fernando

Comsigo. Extranha ?

Elisa

Sim. N'este momento, um pouco. . .

Fernando

Minha boa e querida amiga,.. Permitte-me que lhe chame assim ?

ACTO SEGUNDO 63

Porque não?

Elisa

Fernando

Minha boa e querida amiga, assentando no princi- pio de que a sua partida, que acaba de me annunciar, é apenas determinada pelas naturalissimas razões que disse, —confesse que ha três dias não me teria annunciado uma resolução d'essas com a frieza com que acaba de o fazer. . .

Elisa Ha três dias eu não podia pensar n'is50.

Fernando Mas, se o pensasse, não m'o teria dito assim.

Elisa

Ahi está uma coisa a que eu não lhe posso respon- der. Parece-me, porém, que não ha muitas maneiras de dizer uma coisa d'estas.

Fernando

Mas ha muitas maneiras de a sentir. RecorJo-me que em três mezes de permanência sua n'esta casa fo- mos dois bons amigos dois bons amigos um do ou- tro e os melhores do pobre Manuel. HajDÍtuei-me á sua doce e calma intimidade. De repente, essa intimidade que- bra-se, vejo-a aproximar-se de níim e dizer-me rude- mente, naturalmente muito bons dias, vou -me em- bora : seja por muito feliz I - Quando duas pessoas

04 VERTIGEM

como nós se separam, ha, pelo menos, um oJhar de saudade. E esse olhar de saudade, que eu teria hdo nos seus olhos ha três dias, não o encontrei hoje. Sinto que perdi a sua confiança.

Elisa Que idéa ! E porque^ teria perdido?

Fernando

O motivo adivinho-o. A Elisa detesta Maria Eduarda. Confesse que a detesta. Desde ha muito que vejo este sentimento em si, quando se refere a ella.

Elisa

Detestal-a, não. Mas comprehende que, depois do mal que ella fez a Manuel, ao filho da sr. Marqueza, eu não lhe possa querer bem.

Fernando

Seja. Isso justificaria o seu despreso,— se quizer, a sua repulsão. N'outra qualquer mulher justificaria a aversão. Mas em si, que eu sempre vi em tudo incli- nada á bondade, á indulgência, tenho o dever de não a julgar assim.

Elisa

Deixo-lhe o direito de me julgar como quizer.

Fernando

Oh ! não creia que a julgue mal. Digo-lhe apenas isto para dar aos seus próprios olhos, e aos meus tam-

ACTO SEGUNDO 65

bem, a explicação da hostilidade— da hostilidade !— que ha dois dias leio na sua alma contra mim. O seu cora- ção não me perdoa o ter sido eu a causa immediata do regresso a esta casa de Maria Eduarda, e no fundo, cen- sura-me não ter cumprido, ou ter cumprido mal, os meus deveres de amisade para com Manuel, aproxi- mando-o da mulher. É isto?

Elisa

O sr., procedendo assim, procedeu naturalmente como amigo. . . de Manuel.

Ferxando

Como amigo de Maria Eduarda ia a dizer... (pausa) Dirá no emíanío melhor como amigo dos dois. Creia que se fui eu quem trouxe aqui Maria Eduarda, a pedido d'ella e com consentimento de Manuel, apenas como preço irrecusável da sua immediata sahida de Lisboa que Manuel julgava, ou dizia julgar, indispen- sável para o seu socego não suppuz nunca que essa visita da mãe á filha se poderia, sob qualquer motivo ou pretexto, prolongar além de três quartos d'hora ou uma hora. O que aconteceu depois, diabólica ou provi- dencialmente, não é da minha responsabilidade d'amigo. Tanto me quiz conservar a tudo extranho, que deixei, logo no dia seguinte ante-hontem Lisboa. voltei chamado por um telegramrpa— e não será por meu in- termédio que se fará uma reconciliação, agora, porven- tura, tão humilhante para Manuel como impossível para Maria Eduarda.

Elisa Impossível?

66 VERTIGEM

Fernando

Impossível, certamente. O amor não é um brin- quedo que nós impunemente possamos, quando quere- mos, quebrar nas nossas mãos curiosas ou enfastiadas. Não. O amor é o mais exigente, o mais imperioso de todos os senhores. É preciso passar por elle, domi- nando-o. Quem, ao contrario, faz d'elle exclusivo domi- nador das suas acções, quem lhe entrega, bem ou mal," a sua consciência e a sua vida, como Maria Eduarda, pertence-lhe desde esse momento. É um pacto infernal firmado com o sangue das próprias veias. Esse pacto não se rompe quando nós queremos mas quando o amor, nosso amo, nos liberta pelo soffrimento ou pelo esquecimento. E esse dia de libertação, minha cara amiga, ainda não pôde ter chegado para Maria Eduar- da. Ahi tem as razões porque eu não poderia hoje aconselhar, nem a Maria Eduarda, nem a Manuel, uma reconciliação peior, por emquanto, para um e para ou- tro, do que todos os desesperos do ódio. (Estendendo-lhe a

mão) E agora, depois d'esta explicação e d'esta peque- nina lição de moral, poderemos nós considerar-nos reconciliados ?

Elisa

Se nunca estivemos inimigos!

Fernando

É melhor confessar que o estivemos durante um momento, o bastante para dar agora um doce sabor a estas solemnes - pazes >.

Elisa

Peço-lhe que me não julgue mal. . .

ACTO SEQUNDO 67

Fernando (Affectuoso) Sentil-0-hia muito ? Elisa

(Afastandc-se d'elle, como que fugindo-lhe) MuitO. Creia . . . (Sae correndo, pela E.).

Fernando

(Vendo-a sair, depois de ter feito um movimento para seguil-a. Para si, voltando-se e indo tocar a cimpainha) Na minha cdadc ! Oh !

na minha edade ! (Ao creado) Previna o sr. de que eu

o espero. (F-ntra SILVESTRE).

SCENA IV

FERNANDO, SILVESTRE PAIXÃO, o CREADO

Silvestre

(Muito delicado, excessivamente delicado, cumprimentando FERNANDO, pousando sobre uma cadeira dois em.brulhos) Creado de Y . Ex.'^ !

Humilde creado de V. Ex.^ !

O creado

(Voltando, a FERNANDO) O sr. pede a V. Ex.^ o obsequio de o esperar aqui um momento ou de ir ter com elle ao escriptorio. Chegou agora o mjJico para vir vêr a menina e está a conversar com elle.

68 VfÇTIGEM

Fernando

Bem. Bem. Diga-lhe que o espero aqui.

Silvestre

(Ao CREADO, quevaeasair) Essa eticommenda para minha mulher, para a sr.^ D. Amélia. Não se esqueça de lh'a

entregar. (lirando-lhe das mãos um dos embrulhos) EsSC nãO, iSSO

não. Isto é para os meus pequenos. A minha mulher está?

O CREADO

Não sei, sr. Paixão. Supponho que ainda não veiu hoje.

Su.VÉSTRE

Sim ? É o mesmo. Leve a encommenda á sr.-"* D. Maria Eduarda, (o creado sae. a fernando) Tudo brin- quedos para a menina. Desde que a sr.^ D. Maria Eduarda voltou, a Amélinha tem-me feito trazer para cá, por ordem d'ella, uma loja de quinquilharias. Mães! . . .

Fernando

Faça d'isto um soneto, sr. Paixão !

Silvestre

Não o diga V. Ex.^ a mangar ! (Sentandc-sc) Isto dava mas era uma tragedia.

Fernando O sr. Paixão gosta das coisas fortes?

ACTO SEGUNDO 59

Silvestre

A emoção? Ah ! isso !. . . Na minha edade fica-me talvez mal dizel-o, mas péllo-me pela emoçãosinha ! Um guarda-livros como eu, com cincoenta mil réis mensaes quarenta para os gastos, seis para a renda da casa e quatro para as extravagâncias, incluindo os filhos creia V. Ex.^: é o que levo d'este mundo ! Por isso me chamam no escriptorio o Paixão, . . assolapado !

Fernando

E as suas collecções?

Silvestre

Tenho agora uma, muito bonita, de vasinhos de man- gericos. Comecei-a n'este S. João. Tenho de quasi to- dos os tamanhos. Falta-me um modelo... Mas V. Ex.^ comprehende. . . Quem não é rico, tem de se su- jeitar a colleccionar coisas pobres. . . Falta-me um mo- delo. . . É muito artístico.

Fernando

Quanto custa essa preciosidade?

Silvestre

Doze vinténs, mas, ainda assim, são vinténs de mais para mim. Tenho que ir de vagar, mesmo porque a Amélinha se sabe que eu gasto um real com estas

coisas, larga-me o fogo ! (FERNANDO vae accender um cigarro. SILVESTRE, rapidamente, tomando-Ihe a caixa de phosphoros da mão e examinando-a, arregalando os olhos) V. Ex.^ dá-mC liccnça?

tenho, tenho esta na- minha collecção, mas n'ou- íras posições.

6

70 VERTIGEM

O quê

Fernando

Silvestre

Esta cocofíe. . . « Paris-Salon •. Deve ser muito co- nhecida. . .

Fernando

(Rindo) Mas isto uão é uma cocotle é a reproducçào d'um quadro : Eva.

Silvestre

(Surprehendido) Ah ! Eutão é indecente sem a folha de parra e tratando-se, de mais a mais, da - mulher do próximo '^ mais remoto que nós temos na antiguidade.. .

Fernando

(Impaciente, olhando a porta) MuitO bem ! . . . VcjO que é

forte na antiguidade do !

Silvestre

TantD quanto o pode ser um bom guarda-Hvros e um bom pae de famiHa que, acerca de « modernidades ^• do nú, sabe apenas que tem de vestir a mulher e os filhos!... Ah! n'isso, com os filhos, creia V. Ex.^ sou um lamecha. Gosto de os vêr brincar, cortava a cabeça para os vêr rir ! . . . (apoz um momento) E, que falíamos n'isto, sempre o direi a V. Ex.\ Ha dois dias que ando fora de mim!

Fernando Porquê?

ACTO SEGUNDO 71

Silvestre

(Relanceando os olhos pela sala) IstO, ÍStO tudO . . . Quando

aqui entro, sinto que piso tragedia ! E \'. Ex.-'^ que quer? Pisar tragedia. . .

Fernando É mau piso. . .

Silvestre

Depois, em casa, a Àmélinha, que é muito amiga da sr.^ D. Maria Eduarda, não faz outra vida senão chorar ! Os pequenos, coitados, vendo a mãe assim, não lhes appetece brincar, (enternecido) Não ! Isto pesa- me, creia V. Ex.'\ commove-me. . . (maxuel entra peia d. f.

acompanhado pelo MEDICO)

SCEXA V

FERNANDO, MANUEL, SILVESTRE e o MEDICO Manuel

(A FERNANDO' Mcu caro Femaudo, peço-te mil perdões da demora. (apresentandc-iheoMEOico) O sr. dr. Severo Maia. O meu amigo Fernando Lino.

Fernando (Cumprimentanco) Conhcço-o muito de nomc.

o .MEDICO

(Para MANUEL, Posso então agora ir vera doentinha?

*

72 VERTIGEM

Fernando Vae melhor, não é verdade, dr. ?

O MEDICO

Absolutamente. Nada de cuidado ! Uma fébresita in- fecciosa que me assustou um momento, sobretudo pe- los seus extranhos caprichos. De resto, nervos, muitos nervos ! Uma histéricasinha de cinco annos !

Manuel

(A SILVESTRE) O sr. Paixão faz-me o obsequio de acompanhar o sr. dr. até ao quarto de Nini? Tenho duas palavras a trocar com Fernando.

Silvestre

Peço desculpa, peço mil desculpas a V. Ex.^ de não o ter percebido logo.

Manuel

(Ao MEDICO) Obsequiava-me, dr., não sahindo sem

voltar a fallar-me. (O medico sae peia E. a. acompanhado de SIL- VESTRE)

SCENA VI

FERNANDO e MANUEL Manuel

(Apertando, conimovidamente, a mão de FERNANDO) ObrigadO,

muito obrigado !

ACTO SEGUNDO 73

Fernando

Recebi o teu telegramma. Aqui me tens.

Manuel

Em primeiro logar, pedi-te para vir porque me fa- zias falta. Depois tinha alguma coisa grave a confiar-te e um pedido a fazer-te.

Fernando Ás tuas ordens.

Manuel

A tua súbita partida para as tuas propriedades de Villa Franca deu-me a conhecer que desapprovaste o que fiz. Podia-o esperar de toda a gente, menos de ti que, antes de seres meu amigo, o eras, o foste, como irmão, de Maria Eduarda!

Fernando

Não me cumpre a mim approvar ou desapprovar actos que te dizem exclusivamente respeito. Não. Foram negócios urgentes que me chamaram a Villa Franca.

Manuel

(Seguindo o seu pensamento, desattento ás ultimas palavras de FERNAN- DO) É possível que fosse uma fraqueza, mas eu sinto que não podia proceder diversamente. A filha, ardendo n'um febrão súbito, assustador, quasi em delirio; a mãe, des- pedaçada em choro ! Foram-me chamar. Tu sabes. Assis- tiste ao que se passou. Delíquios, lagrimas. E até hoje, até agora ! Com Maria Eduarda não troquei duas pala- vras. A pequena melhorou. Minha mãe está a chegar.

74 VERTtOEM

Pôde vir amanhã mesmo. É absolutamente indispensá- vel que minha mãe não encontre n'esta casa minha mulher.

Fernando Também assim o julgo, pelo menos por agora.

Manuel

Mais. É absolutamente indispensável que minha mãe ignore o que se passou. Ella foi sempre contraria ao nosso casamento. Depois d'isso, além de todas as ou- tras razões que me dizem respeito, tem motivos espe- ciaes para condem nar Maria Eduarda.

Fernando

Quaes, se não sou indiscreto?

Manuel

Os peiores. Nunca t'os disse. Era-me desagradável fallar a alguém n 'estas coisas. O homem com quem Maria Eduarda praticou a suprema covardia de fugir, frequentava, no verão passado, a casa de minha mãe como. . . como noivo d'uma pessoa, filha d'um antigo procurador de meu pae, que minha mãe tinha na sua companhia, depois que enviuvou e depois que nós, eu e minha irmã, a deixámos só. Minha mãe, mesmo, tinha annunciado o seu propósito de dotar a afilhada. Essa pessoa, como comprehendeste, era. . .

Fernando Era?

ACTO SEGUNDO 75

Manuel

Era Elisa.

Fernando

<No auge da surprjs.i) Elisa ?

Manuel

Sim.

Fernando

(Rapidamente) E. . . uma pergiiuta . . . curiosidade. Ma- ria Eduarda tíve, na occasião, conhecimento dos amores de Elisa e. . . de Luiz?

Manuel

Mas era natural que lhes ligasse a mesma importan- da que eu lhes liguei: nenhuma! De resto, eu ainda hoje estou absolutamente convencido de que esse ho- mem, o mais acabado typo de libertino sem escrúpu- los, nunca desposaria Elisa. No emíanto, supponho que minha mãe surprehendeu, logo no seu inicio, a ligação de Maria Eduarda e do pretendido noivo da sua afi- lhada. Isso originou um rompimento immediato. em cujas verdadeiras causas eu então, em Lisboa, não reflecti. D. Luiz Mourão começou, em Lisboa, a fre- quentar a nossa casa. Pouco depois, dava-se o desenlace que sabes a fuga de Maria Eiuarda. Comprehendi tudo. Sei, no emtanto, que minha mãe ainda hoje attri- bue a Maria Eduarda o desgosto soffrido por Elisa, que creio ter sido grande. Bem vês que esse é mais um motivo de incompatibilidade entre minha mulher e mi- nha mãe.

76 VERTIGEM

Fernando

(Que tem ouvido com impaciência as revelações de MANUEL acerca de ELISA, respondendo agora, depois d'um silencio, á interrogação que sente

no olhar de MANUEL) vcjo uma maneira de evitar que tua mãe e Maria Eduarda se encontrem ou que tua mãe en- contre sequer vestígios do succedido : é a immediata sa~ hida de tua mulher.

Manuel

Essa expulsão seria uma expulsão feita por mim, provocaria entre nós dois uma scena com que eu não tenho forças para arrostar.

Fernando

E pedes-me então, a mim, para as ter? (Silencio de

MANUEL) Ah ! não ! não ! não ! (Passeando a sala) NãO pOSSO

ter, não quero ter mais nada com isso ! Antes do que se passou, comprehendes que o meu papel era diverso. Agora, não. Como queres tu que eu tenha forças para fazer aquillo que te intimida a ti? Fosse pelo que fosse, tua mulher poude permanecer em tua casa dois dias. Com teu consentimento ou, pelo m.enos.. com a tua condescendência. Sim, isto é evidente ! Ir eu agora col- locar-me em frente d'essa creatura para lhe apontar a porta, não! Fui eu, de facto, quem a acompanhou aqui. Mas em condições diversas d'aquellas em que ella agora aqui permanece. E depois, collocar-me entre ti e ella mais uma vez, não I Quem sabe se serias tu mesmo, amanhã, o primeiro a reprovar-m'o?

Manuel Recusas?

ACTO SEGUNDO 77

Fernando

Recuso. (Pausa) De resto, a minha intervenção seria uma inutilidade. Estou absolutamente convencido de que Maria Eduarda não acceitará aqui dentro, um dia mais, uma hospitalidade de mendiga. O seu amor de mãe pôde, n'um momento de delirio, ter abafado o seu orgulho de mulher. Passado, porém, esse mo- mento, ao voltar a si, a sua própria consciência lhe indicará o verdadeiro caminho que é o de acceitar o teu perdão, se tu lh'o offereceres, mas não de esmolar a tua condescendência.

Manuel

(Desalentado) O vcrdadciro camiuho, o verdadeiro ca- minho! Chamas tu a isso o verdadeiro caminho I...

Fernando

O único, n'este momento porque é, da parte d'ella, o do respeito da tua dignidade. (Oihando-o) O úni- co, a não ser que tu tenhas dentro de ti a. . . a. . . abnegação de querer perdoar-lhe !

Manuel

Perdoar-lhe, Fernando ? Não ! Mas ha dois dias. ha duas noites, que a sua visinhança me escalda, me envenena o sangue, me corroe a energia! Sinto que a sua proximidade faz de mim um homem diverso do que era na sua ausência, me amollece, me effemina, me excita! Suppunha ter calcado dentro de mim o monstro d'esse amor e sinto-o de novo dentro da al- ma, ha quarenta e oito horas, e experimento nas veias, nos músculos, no corpo e no espirito, a sua peçonha subtil I

78 VERTIGEM

Fernando

Se podes perdoar, perdoa— mas faze então do teu perdão uma heroicidade, não uma fraqueza! Se a ideia do perdão te assusta, vence-a não te deixes vencer por ella!

Manuel

Nunca! Fernando, ajuda-me! Nunca! Seria a ultima das vilanias ! Nunca ! É preciso ! É urgente ! Sinto-me comtudo sem forças para ter com ella uma scena vio- lenta ou humilhante ! Visto que tu te recusas a intervir, ha um meio só.

Fernando

Qual ?

Manuel

É o de sair eu— e para longe, para o mais longe possivel ! Telegrápho a minha mãe para não vir. A Nini fica entregue a Elisa e, logo que possa seguir via- gem, vão as duas para Sousa. É a melhor maneira de evitar, com Maria Eduarda, explicações dolorosas ou palavras amargas. É a única forma de me vencer ! E evidente que, assim, Maria Eduarda terá comprehendido

o que lhe cumpre, (aproximando-se de FERNANDO) EspCrO qUC

tu, ao menos, te não recusarás ao favor de lhe com- municar a minha sahida d'esta casa e as intenções com que o fiz.

Fernando

(Depois de hesitar) Seja. A tua sahida de casa, sim. O resto será inútil. E demasiado claro.

ACTO SEGUNDO 79

Manuel Bem. Obrigado. Obrigado !

Fernando (Como duvidoso) É a tua ultima resolução ?

Manuel

A ultima. (Silencio)

Fernando

Chut i Fila! (MARIA EDUARDA entra pela E. b. Pára um mo- mento, á porta, depois desce lentamente a scena. Ar de fadiga, de quem vem de atravessar uma grande crise moral)

SCENA Yíí

Os MESMOS E MARIA EDUARDA

M. Eduarda

.Meia voz, a FERNANDO) Soubç quc estava aqui, Fernando e, antes que sahisse, quiz vir, deante de Manuel, agradecer-lhe tudo. Sejam quaes forem as minhas culpas, quiz dizer-lhe que me lembro da promessa que lhe fiz e (com mal dominada commoçãc) que Cumprirei a minha pala- vra. Farei com que me esqueçam agora, não apenas pela minha filha, mas por si (apontando manuel) e por clle...

80 VERTIGEM

Fernando

(Approximando-se d'eiia) Vcjo, Maria Eduarda, que tive razão em me dirigir á sua consciência. (Silencio dos três

silencio que diz mais que todas as palavras de commoção. MANUEL, um pouco afastado, não tem coragem de fallar e desvia os olhos de MARIA EDUARDA, que está de pé, sem gestos, immovel. Ouvem-se na E. a. as vozes do MEDICO e de ELISA. MARIA EDUARDA vae para sair: não o faz, porém, a tempo. Detem-se a meio da scena. Entram o MEDICO, ELISA e SILVESTRE. Pouco depois pela D. f. entra AMÉLINHA)

SCENA VIII

Os MESMOS, O MEDICO, ELISA, SILVESTRE E AMÉLINHA

O MEDICO

(Entrando, para ELISA) Não vcjo inconvenientc algum em que a creança hoje mesmo se levante um pouco. Não, não ha inconveniente algum. A febre passou. Não deve- mos temer um novo accesso.

Manuel

E a ida para o campo, dr., para quando a posso marcar sem inconveniente?

O MEDICO

D'aqui a dois ou três dias, sem duvida. Repito-lhe, meu caro amigo, essa creança precisa sobretudo de ar livre, tranquilidade, egualdade de vida. Temos alli um' feixesinho de nervos. É um caso curioso na sua edade. É preciso dominar, vencer n'aquelle corpito débil os

ACTO SEGUNDO 81

perigos d "uma histeria precoce. (sentando-s»í A creança deve ter tido ultimamente uma commoção qualquer vio- lenta. Disseram-me já, não é verdade?, que a morte

(olhando, curioso, MARIA EDUARDA, que ELISA fita também) d'uma

pessoa de familia. Digo isto, porque assim posso expli- car a exacerbação notável d'aquelles nervos infantis. Ha dois dias que a encontro de novo presa d'uma agitação nervosa que não deve ter influído pouco nos últimos accessos. É por isso que é necessário ^ poupar a essa creança, quanto possivel, todas as contrariedades, resti- tuil-a á sua edade, dar-lhe longas estadas de campo, poupar-lhe a sensibilidade emfim, fazer d'aquella enfezadita e precoce sensitiva uma creança, uma vei'da-

deira creança ! (Hesitando se deve dirigir-se a MARIA EDUARDA cfh 3 ELISA, mas dirigindo-se depois a ELISA) FÍZ-me COmpretlCn-

der, não é verdade, minha senhora? (um creado entra tra- zendo um telegramma que estende a MANUEL)

Manuel

(Depois de abrir o telegramma, a FERNANDO) É minha mãe 3,

dizer-me que não vem e que me escreve. Comprehendes, não é verdade? Tenho a certeza de que não vem, por- que soube o que se passava.

Amélinha

(Quasi ao mesmo tempo, baixo, a MARIA EDUARDA) DcvCS ter

recebido uma carta do Luiz.

M. Eduarda

(Desalentada) Recebi, sim. As mcsmas ameaças, a mes- ma lama. Viste-o?

82 VERTIGEM

Amélinha

Sim, como tu pediste. Disse-me que te tinha escri- pto e, se tu não voltasses im mediatamente, que. . .

M. Eduarda

Bem sei. A ameaça d'um escândalo, não contra mim, que elle bem sabe em nada me incommodaria, mas contra meu marido, contra Manuel. É a elle agora que elie ameaça porque suppõe ser essa a melhor forma de me prender. Não é isto?

Amélinha

Sim, é isso. Que ha dois dias te espera. . .

M. Eduarda

Que não se assuste. Não lhe fujo. Quer ver-me. Ver-me-ha. O que quererá elle mais de mim ?

Fernando

(A ELISA, emquanto MANUEL e o MEDICO conversam e SILVES- TRE fica scismatico num canto) SCi que UãO partirá.

Elisa Como assim ?

O medico

(Cortando este dialogo para se dirigir a MARIA EDUARDA) AcabO

de saber, minha senhora, que tenho commettido a grave falta de não a reconhecer. Peço-lhe mil perdões.

ACTO Sf-OUNDO 83

M. Eduarda

(Conimovida, sem saber o que dizer) Oh ! áv

O MEDICO

(Curvando-se e despedindc-se) Os meUS rCSpeitOS, minha senhora ! <sae acompanhado de MANUEL pelo F. D )

SCENA IX

MARIA EDUARDA e EERNAXDO M. Eduarda

(Que, depois da phrase do MEDICO tem cabido commovida no sophá, levaníando-se após um momento, enxugando os olhos) Está COntcntc COmmigO; Fernando ? (AMÉLI\HAtem-se encaminhado para a E. B. ELISA, ao fundo, aproxima-se da porta do jardim. SILVESTRE, sem sa- ber se deve sair ou ficar, finge-se absorto na contemplação dum quadro da parede)

Fernando

(Aproximandc-se de MARIA EDUARDA) tCnhO a pedir-lhc

perdão se fui demasiado severo. . . M. Eduarda

Oh! não, não! Ensinou-me a Fr s^ívera commigo mesma. Seja sempre meu amigo! (Sa. peiaE. b.)

84 VERTIGEM

SCENA X

FERNANDO, SILVESTRE e ELISA

ELISA, que tem estado ao fundo, que tem subido mesmo ao jardim, mas sempre á vista do publico, aproxima-se lentamente, descendo a scena no decurso do pequeno dialogo que se segue.

Fernando

(A SILVESTRE, que continua parado a contemplar o quadro da parede, tão absorto que não pela sabida de MARIA EDUARDA) Também é

amador de quadros, sr. Paixão?

Silvestre

(Como quem accorda estremunhado) Estava . . . estava a admi- rar o caixilho !

Fernando

Confesse que está commovido !

Silvestre

Mesmo que o não confessasse, V. Ex.^ adivinha- va-o . . .

Fernando

É uma coisa que lhe acontece muitas vezes, não é verdade?

Silvestre

Saiba V. Ex.^ que sim. Mas nem sempre como hoje ! Nem sempre como hoje ! . . . Saiba V. Ex.^ que

ACTO SEGUNDO 85

são coisas superiores ás minhas forças I E n'e3tas coisas de sentir, sim, de sentir pelos filhos, mesmo dos ou- tros, eu sou pae mas creia V. Ex.^, como o outro que diz, ás vezes tenho a impressão... de que sou mãe porque as mães comprehendem certas coi- sas ! r. . Á obediência de W Ex.^ ! (Sahindo, ás arrecuas) Com licença de V. Ex.-^ !

SCEXA XI

ELISA E FERXAXDO

Elisa

(A FERNANXO) Parece-mc que o vejo mais propenso a acreditar agora no perdão do que ha bocado.

Fernando Engana-se.

Elisa

Não acredita no perdão ?

Fernando

Não. Acredito no amor no -amor exclusivo que redime pelo softrimento, pela angustia, que purifica tudo, a. felicidade ou o infortúnio, a culpa, a própria menti- ra! O perdão, por si, despido d'outra inspiração, é he- róico de mais para ser humano I o amor perdoa o amor! a desgraça perdoa a desgraça!

7

k

o^ VERTIGEM

Elisa

Mas, segundo as suas theorias, porque não ha-de o amor de Manuel perdoar a desgraça de Maria Eduarda?

Fernando

Por todos os motivos que lhe expuz ha pouco e por mais um : se Manuel ama Maria Eduarda, esta po- derá nobremente acceitar o seu perdão no dia em que puder dignamente acceitar o seu amor.

Elisa

O sr. sente-se, pois, incapaz de perdoar?

Fernando

Sim, minha amiga,— mas sinto-me, felizmente, capaz de amar. . .

Elisa

Mesmo tendo de perdoar?

Fernando Mesmo tendo de soffrer ! Porque mo pergunta?

Elisa Por coisa alguma. Pela nossa con/ersa de ha pouco.

Fernando

Diga antes que tem também na sua vida alguma coisa que perdoar e ainda não perdoou. . .

¥

acto segundo 87

Elisa A quem?

Fernando A Maria Eduarda.

Elisa O quê?

Fernando

Pergunta-m'o a mim ? Porque é que a sua delica- deza moral deixou que outros m'o dissessem? Sei tudo

por acaso, creia. Sei que, no passado, se encontra- ram as duas no mesmo amor e que a si foi dada a fe- licidade de passar, immaculada, junto da desgraça que a havia de perder a ella. Sei o seu amor por D. Luiz Mourão e sei que foi Maria Eduarda quem a desviou d' esse homem, interpondo-se com a sua leviana paixão. Não é isto ? Comprehendo agora tudo a sua seccura com Maria Eduarda, a sua frieza commigo, o seu de- sejo de partir. . .

Elisa

(Depois d'um silencio) Sc O sabc— tauto mclhor para mim.

E era então por isso que me dizia, ha pouco, que eu não partiria?

Fernando

Era, sim. Porque a sr.^ Marqueza não vem, e porque Maria Eduarda deixa esta casa. Cessam, pois e ainda bem o pretexto e o motivo da sua partida.

88 VERTIGEM

Elisa

Engana-se. Se outro motivo não vier ao meu encon- tro, procurá-lo-hei. Hei-de partir.

Fernando

Porquê? Ha ainda então alguma coisa que me oc- culta ?

Elisa

Xão. Ha apenas o meu desejo de partir e esse não Ih'o occulto.

Fernando

Elisa ! Elisa ! Para a vêr abrir-me o seu coração é então necessário que eu lhe diga que a amo, com um amor feito de serenidade e de confiança? Quando um homem, como eu, educado na solidão, habituado a ca- minhar direito na vida, diz isto a uma mulher tal como eu a julgo a si, generosa e triste, é porque esse amor que assim promette significa uma resolução— e uma re- solução capaz de luctar contra tudo.

Elisa

Lembre-se de que não é este, n'esta casa, o melhor momento para conversas d'estas.

Fernando

O próprio infortúnio que nos cerca é um penhor sagrado das nossas palavras.

Elisa (Exaltada) Fcmando ! Não prosiga ! Peço-lhol

ACTO SEGUNDO &Q

Fernando

Porque receia responder-me ? É inútil. Eu sinto que o seu coração acolhe o meu amor. E o segredo que existe contra mim na sua alma, hei-de surprehendel-o.

Elisa

Não é generoso, insistindo. Esqueça-se do que me disse. Eu esqueço-me do que lhe ouvi. Sou uma pobre creatura, feita desageitada na orphandade, na pobreza, no orgulho. O senhor é um espirito fortalecido na feli- cidade e na vida. Não fomos feitos para nos entender. . .

Fernando

É falso 1 Se eu nunca disse a uma mulher que a amava e se lh'o digo a si, se a Elisa de ha muito perce- beu o meu amor e não o evitou é porque os nossos espiritos se encontram e os nossos corações se procu- ram.

Elisa

(Com decisãc) Pois bem. Seja. É certo, Fernando, que eu nada poderia esperar melhor do que pertencer-lhe que o admiro, que me semi, desde o primeiro mo- mento, bem ao de si. Gostava de lhe dizer isto. Dis- se-lh'o pela primeira e ultima vez. Ha, porém, alguma coisa que nos separa. i.\ um gesto de Fernando) Não tente sa- bêl-a de mim. Pôde sabêl-a de outros. Eu nada mais lhe direi.

Fernando Ama outro homem ? Ama. . .?

90 VERTIGEM

Elisa

(Interrompendo-o) NãO. Creia-me.

Fernando

Ainda bem ! Por si ou sem si, esse segredo hei-de surprehendel-o. Seja o que for que transitoriamente a desvie de mim, juro-lhe que a hei-de recuperar, ainda que para isso tenha de a ir buscar ao seu pas- sado !

SCENA XII

Os MESMOS E MANUEL

Manuel

Elisa ! Ah ! procurava-a para lhe dizer que minha mãe me telegraphou a dizer que não vem. Espero uma carta sua— que o seu telegramma me annuncía. No em- tanto, peço-lhe que, logo que possa, prepare as coisas da pequena. É provável que tenha de fazer uma longa viagem. Terei de lhe entregar mais uma vez a Nini e de lhe pedir para a acompanhar a Sousa. (Elisa caiia-se)

Fernando Meu caro Manuel, digo-te adeus.

Manuel lá?

ACTO ScGUVDO 91

Fernando

Comprehendes que não posso demorar-me. Não tive, sequer, tempo de me escovar.

M ANU EL

É o mesmo. Esta casa é tua. Não me deixes. Pe- ço-te. Não me abandones agora, (eernan^o faz um movi- mento para resistir. A um cesto implorativo de MANUtL cede) Agrade-

ço-te. (A ELisAquevaeasair) Peço-Ihe, EHsa, quc faça indi- car a Fernando o quarto destinado a minha mãe. <A FERN.\NDO) cucontrarás com que te escovar e arran- jar. (ELISA sae) Mais do quc nunca, quem sabe se eu pre- cisarei de ti? Talvez saia agora para evitar encon- trar-me de novo com ella. (ir^do acompanhai-o até ao F. D.) Vae arranjar-te á tua vontade. Eu vou ter comtigo ao quarto de minha mãe. (FErnando sae peio f. d. manuel vae

a sair pela D. B. Ã porta da E. B. app.irece MARLA EDUARDA.)

SCEXA XÍII

iMANUEL E MARIA EDUARDA M. Eduarda

(Da por!a, a meia voz) Manuel I . . . ^-MANUEL detem-se, sem

se voltar) Manucl 1 . . . Que mal ha em que tu me deixes beijar-te a mão ?

Manu'el

(A meia voz. É mclhor, Maria Eduarda, que nos se- paremos em paz I

92 VERTIGEM

M. Eduarda

(Avançando para eiie) Xão é 3. tua paz quc CU qiicro per- turbar! Descansa! Tu foste tão bom para mim! Per- dôa-me, perdoa á minha tresloucada cabeça, o ter vindo perturbar o teu esquecimento ! A minha obrigação era obedecer-te sem discutir, quando tu me mandaste des- apparecer de Lisboa! O meu orgulho de mulher e o meu amor de mãe quizeram discutir o preço da obe- diência que te devia. A tua generosidade deu-me a me- lhor das lições. Agradeço-t'a. D'ora avante, sei o que te devo e cré que não o esquecerei !

Manuel

.Maria Eduarda! . . . \ão continues, por Deus ! -^ a revolver no meu coração a ferida que as tuas mãos abriram ! Faze com que eu te esqueça. É o único bem que te peço I

M. Eduarda

Esquecer-me-has. Está certo. Quem não esquece uma mulher como eu?... (maria eduarda c manuei

a^ora, aproximam-se. Pela primeira vez os dois encaram-se).

Manuel

(Excitando-se, a pouco e pouco) E dizcr quc durante noites e noites, horas infindáveis, eu desejei, eu pedi a Deus este momento de te ter assim, deante de mim assim . . . para te gritar o meu desprezo, para te ama- chucar no meu rancor, para te arrastar pelo chão, para te humilhar, para me vingar!... E, no emtanto, ha quarenta e oito horas que te consinto commigo debaixo do mesmo tecto, que sinto o teu hálito venenoso, sem ter a nobreza de te expulsar com um gesto de des- aggravo ! E tenho-te deante de mim, face' a face e o

ACTO SEGUNDO 93

meu rancor desapparece e as palavras cruéis ficam-me na garganta I Tenho piedade de ti! Tenho piedade de ti ! . . . Covardia ! ,

Al. Eduarda

E para que tens piedade, se eu t'a não mereço?

xManuel

E foste tu quem despedaçou toda a minha vida ! . . . Olhando-te, vendo-te de novo, eu não te reconheço ! . . . Quiz convencer-me de que tu tinhas morrido e, na ausência, não o pude I Tinha-te sempre viva, como um inimigo, deante de mim ! E agora que posso tocar-te, que te oiço, que sei que és tu, bem tu agora, sim, tenho a impressão de que morreste... de que morreste e de que tu, que me falias, és outra, bem outra! Vae-te ! . . ,

M. Eduarda

Para que soffres? Para que soffres tanto? Odeia-me, insulta-me! Expulsas-me?. . . Tens razão! Eu vou dei- xar-te, eu vou deixar-te ! \'erás que hei-de morrer para ti completamente! Ordena-me o meu castigo! Ex-

pial-O-hei ! . . . Í.MAXUIIL esconde o rosto entre as mãos: toda a ener- gia se lhe esvae. MAKIA EDUARDA aproxinia-se d'elle, toma-lhe timida- mente a mão, que elle logo lhe retira) QuC querCS mais que CU

faça? Humilha-me a tudo! Tens razão! Eu sou outra

(Tomando-lhe novamente a mão) VêS? SoU OUtra ! SoU Uma SOm-

bra da creatura que te feriu tão cruelmente ! Que admira que tu me não reconheças a mesma se eu própria me não reconheço ? ! Em três mezes envelheci três sé- culos 1 Em três mezes soffri três vidas de agonia I

Manuel Três mezes! ...

94 VF.RTIGEM

M. Eduarda Três mezes de remorso, de lucta sem tréguas...

Manuel De vergonha, de humilhação!

M. Eduarda

(Com um accento de paixão) De VergOUha ! . . . E tudo ÍSS0,

desde a hora em que fugi ! Ao transpor aquella porta, levava dentro de mim o desespero ! . . . Mas era como que uma suggesíão fatal, a vertigem, o hypnotismo da desgraça. . . Tu não acreditas? Sim ! A desgraça parece que nos hypnotisa ! E depois, dizia que era o Destino. . . O Destino!. . . Que queres? Enganava-te ha quasi um anno! E tu não o vias! Ssnti vergonha de te enganar! Podia ter-me detido a meio ! Imaginei que teria remor- sos de viver comtigo se não te confessasse tudo ! E con- fessar-fo não queria, não podia ! . . . Abalei ! Abalei por isso. Imaginei quí era o meu dever! iV\as se eu, em vez de fazer o que fiz, te tivesse dito tudo, me ti- vesse lançado aos teus pés, pedindo-te perdão da minha falta não é verdade, Manuel, que tu então poderias íer-me perdoado ?

Manuel

(Como para si) Quem sabc ?

M. Eduarda

Não quiz humilhar-me ao teu perdão preferi o teu ódio. Vendei os olhos e caminhei para o precipicio !

ACTO SEGUNDO 95

Manuel

(Levantando-se) \ào, Maria Eduarda I Eu não devo ou- vir-te mais! Eu não quero ouvir-te mais I

M. Eduarda

Porquê, se é da outra que eu te fallo?

Manuel *

(Avançando para MARIA EDUARDA, em lucta com um desespero in- timo, lomando-ihe as mãos) Não prosigas ! Não quero ! Prefiro que não desfaças o meu pesadello ! Deixa-me odiar-te !

M. Eduarda

(Com um lampejo triumphal nos olhos, quasi n'um grito) Tu amaS-

me ! Tu amas-me ainda!

Manuel

Oh ! não ! Desprezo-te ! Desprezo-te ! Odeio-te I

M. Eduarda

Tu amas-me ! Não o negues !

Manuel

Amar-te eu, ainda? Amar a creatura sem coração que me trahiu, que me aviltou? Amar-te na vergonha em que te enlameiaste, no opprobio de que me cobris- te? Oh I não ! Eu não te amo ! Tu morreste para mim 1 Eu posso sentir por ti senão desprezo !

\

95 VERTIGEM

M. Eduarda

Para que o negas? Cada uma das tuas palavras me grita ainda o teu amor ! Insulía-m.e os teus insultos são amor, amor que quer odeiar, mas amor! O teu deses- pero, o desdém que me atiras, o fogo das tuas mãos, o calor dos teus ultrages, a hostilidade do teu olhar, é amor— amor feito de fel, feito de maldição, mas amor!

^ A\anuel

(Fora de si. Calla-íe I Calla-te I Calla-te, senão estrangu- lo-te !

M. Eduarda

(Com expressão de triumpho) Kega-0 agOra, SC éS Capaz l

Manx"el (Vencido, impiorativo) Calla-te, calla-te !

M. Eduarda

E para quê! Se o que te assusta, o que te perturba, O que te desvaira, não é a minha voz, é a do teu pró- prio coração, é a voz do teu amor! E para quê? Que nos faz isso, Manuel? Culpada, como sou, absolvida ou não por ti, culpada fico ! Não ! Não o escondas de ti próprio ! Se, apezar de tudo, tu me não expulsas, se me insultas, mas não podes desprezar-rne, se me accusas mas não podes repellir-me— é que me amas com um amor que não é feito de tua vontade, mas que existe superior a ella, superior ás minhas culpas, superior ao teu orgu- lho ! Meu pobre amigo, não o negues !

ACTO SEGUNDO Q?

Manuel

(Vencido, deixando cair a cabeça entre as mãos d'elia, n'um n:urmurio)

Fens razão ! Tens razão !

M. Eduarda

(Passando-lhe a mão pela cab.ça) i\!eJ pobre Manuel I . . .

Meu pobre Manuel !

Manuel

(Dominandc-.e um pouco) Qje mais cucrcs tu de mim?

M. Eduarda

(Levantando-se) Agora quc ícnHo a ccrteza de que o teu amor sobreviveu a tudo, deixo-íe, volto ao meu triste destino com menos magua. Guardarei no meu coração, como uma triste flor murcha, a doce certeza de que sou por ti amada, apezar de tudo 1 Que queres? Agora que sei que me não odeias, tenho mais força para te dei- xar I . . .

Manuel

E para voltar para o teu amante?

M. Eduarda

Oh I não I Agora, não I Pai-a elle, não 1 Juro-t'o. Irei viver, trabalhar, soffrer . . .

Manuel . Oh 1 Maria Eduarda ! Que mal te fiz eu ? (Marla

EDUARDA, sera nada lhe dizer, encaminh:-3e lentamente para a porta. MANUEL debate-se n'uma crise de amor e de orgulho— d'amor ede orgulho desesperados. MANUEL, quando MARIA EDUARDA vae a trasnpôr a

Q8 VERTIGEM

porta, sem se poder conter, n'um grito) NãO ! Fica ! (MARIA EDUARDA volta-se : n'um movimento nervoso corre para elle, enlaça-o. Os dois ficam um momento presos n'um longo abraço)

M. Eduarda

(Desprendendo-se-lhe dos braços, esfregando os olhos, como quem des- perta d'um sonho) Não! Não! Não pode ser! É impossível! Amanhã arrepender-te-hias, amanhã arrepender-nos-hia- mos. . . Não quero o teu perdão !

Manuel Tu?

M. Eduarda

Eu, sim ! Tu não tens o direito de me perdoar ! Tu não podes perdoar-me ! Era bom se pudesse ser, mas não pôde ! Entre nós dois ha alguém que tem, como tu, mais do que tu, o direito de me julgar ! E d'essa, tenho eu obrigação de conquistar o perdão, mais tarde, es- piando agora a minha falta até ao fim !

Manuel

(DesorientídD) Quem ?

M. Eduarda

A nossa filha ! Ella, ella ! Mais tarde,^ quando soubesse, o que diria ella de mim ? Não ! E preciso que eu me faça esquecer, que eu seja desgraçada para que ella me não despreze um dia, para que nos não despreze a ambos, Manuel !

Manuel

Tu deliras! Das tuas faltas eu sou juiz, do meu perdão eu sou senhor !

ACTO SEGUNDO QQ

M. Eduarda

Das minhas faltas para comtigo ! Xão das minhas faltas para com ella ! E para com ella eu fui criminosa, criminosa do mais negro crime!... Se tu soubesses 1 Na noite em que aqui voltei, ante-hontem, inclinada sobre a sua cabecita frágil, sentia-lhe a respiração fe- bril ! Olhava-a, sem querer tocar-lhe, tocava-lhe sem a querer sentir. De repente ella abriu para mim, na es- curidão, os seus olhiíos vivos e perguntou: " Quem é? - Alguém, do lado, disse-lhe : ^ E a mamã - A mamã morreu - respondeu a sua vozita débil. (Chorando) Ah í Manuel ! Manuel ! então senti a vergonha de não ter, realmente, morrido I E agradeci-te a piedosa men- tira que me poupava o seu desprezo de creança se tu lhe tivesses dito que eu a abandonara! Depois, quando me reconheceu, quando estendeu para mim a sua face queimada pela febre, eu senti que no seu pequenino espirito se formava uma interrogação horrível ! Como ? Como é que eu, que ella suppunha morta, estava alli? Fugi-lhe com o olhar! Ella nada me disse: nunca m'o perguntou ! Mas o S2U silencio é uma braza que me escalda ! . . . Não tive, desde então, coragem de afrontar o seu olhar infantil ! Eu devo desapparecer ! E preciso poupar-lhe todas as commoções disse-o aqui, ha pouco, o medico. Ella precisa de tranquillidade, de ser creança como as outras! E a tranquillidade lh'a pôde dar a minha ausência immediata, o meu esquecimento ! Dir- Ihc-has depois que quem ella viu n'estes dias era... era uma allucinação de febre : dize-lhe, se quizeres, que era eu, mas que estou muito longe, que morri outra vez : o que quizeres ! E depois, mais tarde, ensina-a a perdoar-me para que ella um dia, se me voltar a vêr, saiba respeitar no meu crime a minha desgraça e possa amar-me ! E possa amar-me I . . .

100 VERTIGEM

Ma.nuel

D'ella, te lembras agora I Xão te lembraste quan- do nos trocaste a ambos pela primeira aventura!

A\. Eduarda

Oh! Calla-te ! como eu soffro ! Calla-te ! Por mais que digas, de mais, de muito mais, com mais horror me accusa a minha própria consciência ! E não vês que é para resgatar a minha falta para com ella que eu me quero sacrificar a viver de rastos ! Ah I Manuel j A nossa filha tem os meus nervos, herdou a minha imaginação, esta curiosidade soffrega da vida que me perdeu e de que ella soffre aos cinco annos! \'ê se fazes d'ella uma mulher diversa da que eu sou I

Manuel

O que ella não herdou, felizmente, foi o teu cora- ção empedernido ! Tu imaginas que não estou a lêr na tua alma? Em ti ha logar para um affecto, e esse mesmo intermiítente e doentio : o d'ella. Mais nenhum ! Ha meia hora que me humilhas, arrancando-me a con- fissão da minha humilhação pelo prazer de me vêr rojado aos teus pés ! Não tens o direito de invocar, no teu jogo infernal, o nome da tua filha I Vae, vae rir-te de mim, com o teu amante ! Mereço-o !

M. Eduarda

(Com sinceridade) Quc valcria dizer-te que te amava se tu me não acreditarias ! Não t'o disse por isso.

Manuel Tu, amar-me?

ACTO SEGUNDO IQl

M. Eduarda

Sim, amar-te I Amar-te desde que te perdi, desde que te vi engrandecido pela distancia, pela bondade e pelo soffrimento I Pois tu não vês que o teu amor não te humilha aos meus olhos: santifica-te I (Com um longo beijo de infinita doçura) Sim, mcu querido amor trahido, eu amo-te, como nunca te amei, como nunca suppuz amar-te !

Manuel

E recusas o meu perdão?

M. Eduarda

Sim. Porque se o acceitasse, teria o ar de t'o ter vindo esmolar. Porque, acceitando-o, quem sabe se po- deria depois amar-te como te amo? Tu offereces-me o perdão ! Para crimes como o meu, o perdão não basta : é preciso o esquecimento. E o esquecimento, nem tu m'o offereces com o teu amor, nem eu agora, que te amo, t'o daria! Não I Por ti, também, é preciso dei- xar-te !

Manuel

(No cumulo da dór) Por Dcus, não me digas que me amas! Dize-me antes que me odeias! Prova-me que me desprezas ! Faze-me, por Deus, a graça de dizer que eu não te posso amar I

M, Eduarda

I (Depois de o olhar) Pois bem, Manucl. Juro-t'o. Farei

■' tudo, tudo para que tu deixes de amar-me ! Rebaixar-

me-hei aos teus olhos para que tu me percas ! Se é esse

8

102 VERTIGEM

O preço da tua tranquillidade, confia em mim que tudo farei para t'o dar !

Maxuel

(Como n"uma grande esperança) Dcixar de te amar ! . . .

j\l. Eduarda Se essa é a felicidade para ti, o meu amor t'a dará ! Manuel

(Saindo alucinado, pela D. B.) NãO qUCrO VOltar a vêr-tc! Não quero voltar a Vêr-4e! (MARIA EDUARDA vè-o sair. Vae para se lançar atraz d'elle. Deteni-se á porta por onde elle sahiu e em voz baixa, rouca, estrangulada, diz ainda : Manuel! Manuel! > Depois, cae sobre uma cadeira a chorar.— Pela E. A., quasi ao coUo, embrulhada em chalc?, am- parada, a AMÉLINHA entra com NINI).

SCENA XIV

MARIA EDUARDA, AMÉLINHA e NINI

M. Eduarda

(Vendo NixNi, n'um grito enorme) Minha filha ! Minha filha r (com desespero) Tu has-dc chorar muito, não é verdade? pela tua pobre mãe ! E não acredites em quem te diiser o que eu sou ! Eu adoro-te, adoro-te ! . . .

Ay.ÉLlNHA

(Do lado, assustada) Maria Edi arda !

ACTO SEGUNDO 103

M. Eduarda

(Cahindo em si, subitamente, enxugando as lagrimas, tomando das mãos de NINI a boneca e agitando-lh'a a brincar, deante dos olhos, com um

riso convulso) Sou eu a brincar, sou eu a brincar ! É a tua mãe, a brincar comtigo ! Ah ! ah ! ah ! . . . Ri-te, ri-te, como eu ! Eu quero que tu te rias ! Vamos brincar com a boneca ! Todas três ! Ah ! ah ! ah ! Todas três ! Meu amor ! Meu amor !

DESCE o PANNO

ACTO III

O mesmo scenario do 1.° acto.

SCENA I

MARIA EDUARDA e o CREADO

(Ao abrir o panno, sobre o sophá da D. dorme a somno solto, deitado, CHICO GAMBOA. O CREADO atravessa a scena e, ao fim d'um momento, volta pela D. F. precedido de MARIA EDUARDA.

M. Eduarda (Para o CREADO) A creada ? A Leocadia?

O CREADO

se foi embora. O senhor D. Luiz despediu-a. Entrei eu hontem ao serviço do sr. D. Luiz.

M. Eduarda

O sr. D. Luiz está?

O CREADO

Não, minha senhora.

ACTO TERCEIRO 105

M. Eduarda Sahiu ha muito ? /

O CREADO

Sahiu hoje, de manhã cedo, e ainda não vohou.

(MARIA EDUARDA, dando com os olhos em CHICO, aponta-o ao CREA- DO, com um gesto interrogativo) Ah ! 0 ST. Gamboa ! Veíu hoje

ás 9 horas da manhã, perguntou pelo sr. D. Luiz, per- guntou pela senhora d'elle. Eu respondi-lhe que o sr. D. Luiz tinha sahido e que não sabia de senhora ne- nhuma cá em casa. Então elle deitou-se no sophá, pe- diu uma gemmada e adormeceu. Ai ! credo 1 parece o somno da morte e ronca, com licença de V. Ex.^ como um bácoro !

M. Eduarda

(Apoz uma hesitação; Bem. Xão me conhece, não é ver- dade?

O CREADO

Saiba V. Ex.^ que conheço.

M. Eduarda D'onde?

O CREADO

A Leocadia, antes de sahir, fallou-me, sim senhora, e mostrou-me a photographia de V. Ex.^

M. Eduarda

Melhor. Então, quando o sr. D. Luiz vier, não lhe diga que eu estou em casa. Venha primeiro prevenir- me. (Aparte) Ah I meu Deus ! preciso de cobrar forças [

(Sae pela E. F.)

106 VERTIGEM

SCENA II

CHICO E o CREADO Chico

(Mexendo-se no sophá, abrindo lentamente os olhos, para o CREADO)

Parece que senti bulha! Quem é? veiu o sr. D. Luiz?

O CREADO

Não, meu sr.

Chico

E a minha mulher? Viste-a?

O CREADO

Não, meu sr. "

Chico

Bem. {\'^oltando-se para o outro lado, como a preparar-se para dor- mir) Olha: traze outra gemmada. Sinto-me fraco. Não me sinto bem. Que diabo ! Tu não tens nada que se coma? Não? Vae trazendo sempre a gemmada, para abrir o appetite. (O creado vae a sair) Olha : um cálice de vinho do Porto. Traze também vinho do Porto, (o crea- do sae. CHICO grita para dentro) DoÍS OVOS, hciu ! TrCS OVOS ! Podes trazer três ovos ! (Levantando-se, mastigando em secco, fajlando para si) Um, dOÍS, trCS . . . {Tirando o relógio, vendo as

horas e repetindo) Dois . . . tres ! Parccc que cstou mal do

estômago. Estou mais magro ! (indo á porta novamente berrar)

Quatro ovos! Não faças ceremonia ! Isso bem batidi- nho, hein ? Quanto mais ovos, melhor !

ACTO TcRCEIRO 107

SCENA III

CHICO E GABRIELLA

Gabriflla (Entrand-.) Oh ! . . . Eis-te installciGO ! Chico

(Apoz um momento, parando deant? d'ella, com um ar grave, solem-

ne) Desde as 9 horas da manhã, alli, entendes? Aqui; desvairado, sem um minuto de socego, em braza, ver- dadeiramente em braza, á tua espera I

Gabríella

(Sem se perturbar) QuautOS OVOS ?

Chico

(Inconscientemente) OvOS ? . . . QuatrO ! (Emendando, de súbi- to, no mesmo tom de ha pouco> QuerO dizer . . . OVOS tU briu-

cas ! Tu brmcas com o fogo ! Tu ainda por cima brin- cas ! . . . Uma noite inteira á tua espera I Uma noite, entendes ? uma noite, uma noite toda, é de mais ! Ás 8 horas sahi de casa, vim aqui desabafar, vêr se tinha noticias tuas. Deixei em casa recado, para se tu viesses.

Gabríella estou.

108 VERTIGEM

Chico

(Continuando) E abalei ! E aqui fiquei, aqui estou ! Ri- diculo, isto é ridículo para mim ! Podes crer que soffri, e depois, sem almoçar !

Gabriella

Oh ! Pauvre petit Chi. . . Foi a doença, sabes? Sil- vina . . . Coitada ! Peorou !

Chico

Bem sei. Costuma peorar sempre ás terças, quintas e sabbados.

Gabriella Não a quiz abandonar, não pude prevenir-te.

Chico

Morreu ?

Não.

Gabriella

Chico

Pois vae sendo tempo de a matar! (irritado) E, ao menos, quando a tal Silvina quizer peorar, que peore de dia, que diabo ! conto com isso. Agora de noi- te, não ! Mesmo por causa das creadas ! não lhe che- gam os dias, três vezes por semana, para peorar ! E de mais ! . . . É um abuso !

ACTO TERCEIRO ] 09

SCENA IV

Os MESMOS E RAUL

Raul

(Entrando pela D. F., para CHICQ) SabcS do Llliz ? Tu VÍSte

O Luiz?

Chico

(Agastado) Tcnho-o aqui no bolso do collete ! Homem ! Que pergunta ! Como se eu tivesse alguma obrigaçãa de dar contas do Luiz ? !

Raul

O filhinho ! Não te zangues I Como te vejo aqui, imaginei que sabias. É que, com franqueza, tínhamos combinado almoçar hoje juntos no Tavares. Esperei, esperei até ás 2 horas da tarde e elle nada. Almo- cei.. .

Chico

(Apertando-Ihe a mão, rapidamente) Os mCUS parabenS !

Raul

E elle, nada! Telephonei para o club nada I Corro aqui como um raio !

Chico Nada ! E o que se chama nadar . . . sem sorte !

110

) VERTIGEM

Raul

Tu sabes alguma coisa da. .

. Maria Eduarda?

Chico

4

Ora! ora! Regressou á virtude. Eu logo lh'o disse! Quando ellas são assim, virtude cem ellas !

Raul

Eu, se fosse elle, não consentia ! É um escândalo uma mulher voltar para o marido n'aquellas condições. Fica-lhe mal, ao Luiz, filhinho! Nunca é airoso uma mulher passar o a um homem.

Chico

Quando ellas são assim, virtude com ellas !

Raul

Não. O Luiz anda inquieto, anda perturbado. Anda furioso. Nunca o vi tão por baixo. Não é verdade, madame Gabriella? Está tão callada!

Gabriella

Tudo isso não me interessa. O seu amigo Luiz pôde bem passar sem essa amante.

Chico

Appoiado ! É um homem de sorte é o que elle é! Até as amantes lhe passam o pé... para os maridos. Eu, como marido fallo, virtude com ellas! (Aparte) O raio da eenimada não vem !

ACTO TERCEIRO 1 1 1

SCENA V

Os MESMOS, LUIZ E DEPOIS O CREADO

Luiz

(Apparece á porta e detem-se no fundo a tocar a campainha para cha- mar o CREADO ; ao CREADO que chega) Toma. (dando-Ihe dinheiro) Paga ao cocheiro. (O CREADO sae. CHICO tenta approximar-se do CREADO, agora e na sua nova passagem pela scena d'aqui a momentos, para lhe fallar sem ser visto. Não o consegue.)

Raul, a Luiz Estávamos á tua espera.

Luiz

(Beijando a mão affectuosamente a GABRIELLA, para esta) SériO ?

Gabriella

(Coquette) O sr. é Sempre um homem desejado !

Raul

Esperei-te para o almoço.

Luiz

Não pude apparecer. Esqueci-me. Desculpa.

Chico

E ca espero-te desde... ames do almoço. Preciso fal!ar-te.

1 1 2 VERTIGEM

Luiz Não sabia. Desculpa.

Raul

Imaginei . . . que diabo ! não te vendo apparecer, imaginei um duello, filhinho !

Gabriella

Oh ! um duello n'este tempo, com S. Carlos fechado, não seria chie ! Um duello elegante, não é verdade,' sr. D. Luiz ? em plena season, em janeiro !

Chico

Isso em janeiro, menina, não são os duellos são

os gatos ! (O CREADO entra pelo F. E. com a gemmada e o vinho do Perto, que offerece a CHICO).

Luiz

(Para CHICO que procura encobrir a gemmada, tomando-a disfarçada- mente, atrapalhado) Que é isSO ?

Chico

(Engasgado) É. . . é um copo d'agua com limão. Estou mal do estômago.

Raul Limão e ovo. É uma limonada com ovos. Chico

E. . . é para desenjoar. doma a limonada e tira da bandeja

ACTO TERCEIRO 113

a garrafa de vinho do Porto e o cálice que colbca sobre a mesa. Aparte, a RAUL) És um burrO ! (OCREADOsae)

Raul

(Formaiisadoj Olha que CU não te admitto graças d 'essas !

Chico

(Baixo. te disse, homem ! És um burro ! Andava com vontade de te dizer isto.

Raul

(Engasgado, espevitando-se) Se não fôsse por estar dcaute d'uma senhora e em casa d'um amigo. . .

Chico

(Bebendo vinho do Porto) te CStáS tU 3. zangar ! SoU teU

amigo, pódes crer. Mas és um burro. Uma coisa não tira a outra. (Para luiz; E então, noticias da ave fugitiva ?

Luiz

Maria Eduarda ? Ha-de voltar. Tenho a certeza. Vou jura-lo. Dentro em vinte e quatro horas, o máximo!

Qabriella

Oh ! meu amigo ! // ne faut jurer de rien ! Com mulheres é sempre perigoso apostar !

Luiz Porquê?

]14 vf.rtigem

Gabriella

Porque, D. Luiz, sejamos fraucos. O sr. ama-a. í: é, por isso, que se sente ferido no seu amor. Céga-o o ver que ella, ao seu amor, prefere o do marido. Pois saiba, meu caro D. Juan, que as mulheres teem extra- nhos caprichos e o amor extranhas surprezas. A sua amada não virá. Considere-se abandonado. (Chico e raul,

ao lado, altercam em voz baixa).

Luiz

O meu amor, Gabriella!. . . E é a Gabriella quem me diz isso ! Não, não ! O meu amor-proprio talvez ! Essa mulher ha-de vir rojar-se aos meus pés. Tenho a certeza de que nunca deixou de amar-me. Ha-de voltar. Terei então apenas tempo de lhe sorrir e de lhe dizer adeus, depois de lhe ter agradecido o excellente pretexto que me deu para nos deixarmos em paz um ao outro. . .

Gabriella

Oh ! Oh ! O que ahi vae !

Luiz Não acredita?

Gabriella Cada vez menos.

Luiz

(Confidencial) Mcsmo dcpois do que esta noite lhe disse ?

Gabriella

Sobretudo depois do que esta noite me disse ! O sr.

ACTO TERCEIRO 1 15

imagina que eu não vejo que o sr. me toma apenas como. . . como um derivativo do seu orgulho e do seu amor feridos ? Eu não sou uma mulher que se illuda. . .

Luiz Arrepende-se então do que fez?

Gabriella Oh ! não ! Eu é que o amo ao sr. !

O CREADO

(Entrando, baixo a LUIZ) Está fóra unuT senhora que deseja fallar a V. Ex.^.

Luiz

(Baixo, também) Quem ?

O CREADO (No mesmo tom) NãO diSSe.

Luiz Tu não conheces ?

O CREADO

Saiba V. Ex.^ que não. É uma senhora que veio hoje, de manhã, procurar V. Ex.^ e que não quiz dizer o nome. Vinha de véu. Mal lhe vi a cara.

Luiz

É... aquella pessoa que eu espero, que eu te disse?

116 VERTIGEM

O CREADO

Saiba V. Ex/^ que não.

Luiz

É boa ! Mysterio ! Manda entrar para o meu gabi- nete. (Aponta-lhe a E. A. O CREADO sáe. A OABRIELLA) Minha

senhora ! (a chico e raud Meus caros amigos ! Sem os querer despedir, pedia-lhes no emtanto o obsequio de me esperarem aqui uns momentos. Tenho no meu ga- binete alguém que me procura.

Uma mulher? Não, não !

Raul

Luiz

Chico

sei. É um credor, (chamando-o, ápartê) A propósito de credor. . .

Gabriella

(Levantandose) Mcu caro amigo, CU é quc mc despeço, eu e^o Chico. Tenho umas compras a fazer.

Luiz

(Amável) Dcsoladissimo !

Raul Eu saio também.

Chico

(Sem krgar LUIZ, aparte sempre. A prOpOSitO dC Crcdo;. . .

eu tenho, menino, uma absoluta necessidade de cin- coenta mil reis. Uma divida de jogo.

ACTO TERCEIRO 1 17

Luiz Pois sim. Vem logo. Paliaremos.

Chico Bem. Obrigado. Olha que são sessenta mil reis. . .

Gabriella (Despedindo-se, baixo, a LUIZ) que sei ser discreta . . .

(Sáe com CHICO)

Raul

(Já da porta) Se lôr duello, filhinho, se precisares... sabes. Telephona-me para o Centro, (sáe)

Chico

(Voltando atraz, do F.) Olha. Podcttdo . . . são Setenta

mil reis. ObrigadinhO ! (sáe. LUIZvaeáE. a., abre aporta. Entra ELISA, o rosto coberto com um veu espesso)

SCENA VI

ELISA E LUIZ Luiz

(Só reconhecendo ELISA ao fim d'alguns momentos) EHsa ? !

Elisa

Eu.

118 VERTIGEM

Aqui ?

Sim, Aqui.

\'a minha casa?

Luiz Elisa Luiz

Elisa

É a segunda vez que o procuro. Vim de manhã, an- tes das nove horas. Apesar de muito cedo, pareceu-me ser essa a hora mais discreta de o procurar e era para mim a melhor occasião.

Luiz

Mas sabe que se compromette, que se arrisca deve- ras, entrando assim, em pleno dia, em casa d'um homem como eu ?

Elisa

Sei que me comprometto perante os outros. Não perante mim própria. Mas comprometter-me-hia mais ainda, se desse a esta vizita qualquer ar de mysterio. E melhor assim.

Luiz

\ão a esperava. Estava longe de a esperar ! Tenho um grande prazer em a ver aqui— tanto mais que deve haver um forte motivo para a trazer, tão subitamente, a casa d'este peccador !

Elisa

Vou deixar Lisboa. É natural que não voltemos a encontrar-nos na mesma terra. Bem sabe que não que-

ACrO TERCrfIRO HQ

reria voltar a vel-o. É, se nos avistamos agora, a culpa é ainda sua.

Luiz

Ardo em curiosidade de saber qual seja essa culpa. Perdóo-a d'ante-mão a mim próprio, pelo delicioso pra- zer que me dá, trazendo-a aqui.

Elisa

A sua culpa é nunca ter satisfeito um pedido que lhe fiz. Era do seu dever tel-o attendido, tão sagrado elle era ! por elle desci, depois que nos separámos, ao vexame de lhe escrever tantas vezes : por elle pra- ticaria a baixeza de o procurar em sua casa e de ter de lhe fallar. . .

Luiz

Oh ! Oh I não tenhamos as grandes palavras I Le- var-nos-hiam muito tempo. Quer que me explique?

Elisa

.\ào. >Não o ouviria. Sabe qual era o meu pedido. Face a face, quero vêr se tem coragem de m'o negar!

Luiz

O seu pedido? A minha memorial... Se eu lhe disser que me esqueci i

Elisa

Pois bem. Lembrar-lh'o-hei : Ha um anno que nos não vemos. Depois de tudo o que se passou entre nós, para não ter de o odiar, eu pedi a Deus que

1 20 VERTIGEM

fizesse de nós dois desconhecidos. Somol-o hoje mas ainda não inteiramente. Para apagar da minha memoria a vergonha de ter supposto alguma vez que o amava, preciso de ter a impressão de que nunca o vi, de que nunca ouvi o seu nome, para não ter de corar cada vez que o oiça pronunciar deante de mim . . .

Luiz

E em que lhe posso ser útil n'esse macabro desejo de me exterminar ?

Elisa

Para que, de vez, eu o extermine do meu passado, é necessário que entre nós todas as recordações, toda a possibilidade de quaesquer relações, se extingam. E tal não succederá emquanto eu me lembrar de que alguma coisa de mim existe em seu poder.

Luiz

O que? As cartas que me escreveu? (Rindo) Dar- se-ha o caso de que a Elisa venha romanticamente pe- dir-me as suas cartas. . . e uma madeixa? Oh! minha nobre Elisa, não o creio de si ! E não estou mesmo preparado para essa scena dos meus dezoito annos !

Elisa

Não ! Não ! É certo que o sr. podia ter-me resti- tuído as minhas cartas, por mais ridicula que essa res- tituição lhe pareça, visto que eu lhe restitui as suas ! Mas não se tracta de meia dúzia de phrases idiotas que eu lhe possa ter escripto ! Por tão pouco não me daria ao desgosto de o procurar ! O sr. possue de mim algu- ma coisa de infinitamente mais respeitável do que isso

ACTO TERCEIRO 121

que não lhe pertence a si, nem a mim. Pertence a um morto. O sr. recorda-se, de certo, por mais desme- moriado que esteja, de me ter visto uma tarde rolar aos seus pés de vergonha e de humilhação. O sr. lançava- me em rosto uma calumnia uma calumnia que eu sabia na bocca de muita gente. Tratava-se de alguém que eu não amara, mas a quem quizéra bem, como se quer aos dezeseis annos. Tratava-se d'um morto. De- fendi-me. O morto não podia fallar. N'um momento de desespero, entreguei-lhe ao sr. tudo quanto d'esse morto possuía para o sr, se certificar da pureza doesse segredo.

Isso qi:e então lhe dei é alguma coisa de sagrado na minha vida : é a memoria d'um amigo, d'um quasi ir- mão — são os meus dezeseis annos ! As suas mãos profanam essa relíquia. Exijo-lh'a.

Luiz Assim a estima?

Elisa

Estimo-a, como se estima a hora mais pura da nossa vida.

Luiz E é ella que a traz aqui, arrostando tudo I Elisa

E o olhar d'esse morto querido que me conduz,

desse que não deve poder perdoar-me o vergonhoso destino que dei áquiilo que elle, á hora da morte, me pediu que conservasse como conservaria o seu pobre coração.

122 VERTIGEM

Luiz

Pois bem, minha querida amiga queimei a sua relíquia e não lhe posso restituir as cinzas.

Elisa É falso !

Luiz

Sejamos francos, Elisa ! O que vem aqui fazer não é arrancar-me isso a que chama a hora mais pura da sua vida. Vem aqui apenas certificar-se se eu possuo ainda, ou não, alguma coisa que a comprometia, Appella para o meu brio, exige o minimo, a tal relíquia, quer que eu lhe o máximo, tudo o que se de si conservo, no caso de ainda alguma coisa possuir.

Elisa

Se lhe disse que o resto me era indifferente. Se- pultei tudo isso no desprezo !

Luiz

Disse-m'o, mas eu não a acreditei, nem ainda agora a acredito. Ha meia hora que a sua expressão a de- nuncia. Uma loucura, como a que Elisa acaba de pra- ticar, vindo aqui, a pratica uma mulher que ama e por interesse do seu amor. A Elisa não me ama. Sei-o. Logo, ama alguém e é no interesse d'esse alguém que

aqui veio. (Fazendo o gesto de quem lhe offerece o braço para a acom- panhar á porta) Não se demore mais tempo. É inútil. Jul- gava dispensável dizer-lhe isto mas, emfim, para a tranquilisar, sempre lh'o direi. Eu não sou propria- mente o que, em vulgar, se chama um homem de honra, á face de certos princípios. Mas todos nós temos a

ACTO TERCEIRO 123

nossa honra. Eu tenho a minha. Salvo a devida distan- cia, a minha honra é como a do homem que rouba e que, á meza do jogo, é incapaz de roubar. É a honra do jogo. Eu tenho a honra do amor. Sei os deveres que ella impõe para com uma mulher que nos perten- ceu (oihando-a, vivamente como 3. EHsa me perícnccu a mim dando-nos os seus primeiros desejos! Elisa, tranquilla ! Ame á sua vontade! Faça de conta que me exterminou !

Elisa

O sr. não me desviará do propósito que aqui me trouxe. Entrega-me ou não o que lhe pedi?

Luiz

Quer arrancar-m'o á força?

Elisa

Não. Quero a sua negativa ~ cara a cara.

Luiz Queimei tudo.

Elisa

E falso ! O sr. não queimava coisas que lhe não pertenciam. Sente-se que a sua voz mente!

Luiz

Mentimos ambos. Falle um de nós, primeiro, ver- dade. Ama outro homem ? É o que a traz ? Co- nheço as mulheres, (insistindo Ama outro homem?

124 VERTIGEM

Elisa Bem. Amo.

Luiz

(Mudando de tom) Seja. Franqueza com franqueza. Gos- to das coisas claras. Detesto os subterfúgios. (Oirige-se ao

gabinete da E. A., d'onde logo sae, entregando um masso de papeis a

ELISA) Eis tudo. As suas cartas, a reliquia, a hora mais pura tudo. Está tranquilia? Certa de que não a in- commodarei mais?

Eliía

(Verificando á pressa os papeis, fazendo menção de descer o veu para

sair) Está bem. Obrigada.

Luiz

E agora, ao menos, o nome d'esse homem, d'esse homem, creia, que eu invejo?

Elisa

Se não lhe interessa ! . . . Se eu não amo ninguém !

Luiz

Interessa-me, ao contrario. Interessa-me muito. Jul- ga-me tão ingrato que não me interesse por si ? Vamos, compense-me das violências que me disse, fazendo-me uma confidencia... Confidencia por confidencia, tam- bém eu tenho que me explicar comsigo !

Elisa

E inútil. Esse homem não existe. (Despedindo-se) Adeus.

ACTO TcRCElRO 125

Luiz

Não m'o diz? Eu sou curioso como uma mulher! E isto interessa-me. Aposto que sei- Ha alguém que o deve saber e que m'o dirá.

Elisa Quem ?

Luiz Maria Eduarda.

Elisa

, (Com vehemencia) Luiz ! . . . Para que interpor de novo esse nome entre nós? Maria Eduarda nada tem que saber de mim.

Luiz

Quem o contesta? Mas Maria Eduarda satisfará cer- tamente a minha curiosidade, apenas (sublinhando) a mi- nha curiosidade.

Elisa Maria Eduarda está aqui?

Luiz Não. Mas vou ter noticias d'ella. (O creado entra com

o ar de quem annuncia alguém. LUIZ, apontando para o CREADO) Sc

quizer esperar um momento, vae recebel-as commigo.

O CREADO

(Annunciando; O sr. Femando Lino, que deseja fallar a V. Ex.^

12Ó VcRTIQEM

Elisa

tSem se conter; Fcmando !

Luiz

(Comprehendendo) Femando ! Oh ! É clle, então, o ho- mem feliz? (Com uma ideia súbita) É cllC O homem feliz !

Ainda bem ! (Ao creado) Manda entrar. (O creado vae a

sain

Elisa Luiz! Para aqui? Supplico-lhe ! . . .

Luiz (Imperturbável, ao CREADO) Manda entrar para aqui. (o

CREADO sae.-A ELISA) PoSSO offerecer-lhe (apontando-lhe a E.

A.) O rneu gabinete, para um refugio de momento. (Elisa

hesita) E O UUicO meÍ0. (ELISA, apoz um momento, decide-see sae

pela E. A.i Ora ainda bem ! Uma mulher restitue-me a outra. Eis como é a vida! Vou ter noticias de Maria

Eduarda ! (FERNANDO lixo entra pelo F. D. Os dois homens cnmprimentam-se de cabeça .

SCENA VIII

FERNANDO t LUIZ

Fernando

Tenho estado fora de Lisboa. Ao chegar a casa, ha instantes, informaram-me g:.3 suas duas vizitas de hon-

ACTO TERCEIRO 127

tem, e da precipitação com que, hoje mesmo, V. Ex.-^ me procurou. Não quiz demorar-me em saber os mo- tivos do interesse de V. Ex.-^ em me falar. Vim eu mes- mo ao seu encontro.

Luiz

Agradeço a sua attenção. Tinhamos, de facto, um^a pequena explicação a trocar. E entendi que era melhor que a trocássemos sem qualquer espécie de interme- diários.

Fernando

Ignoro que espécie de explicações possam dois des- conhecidos, como nós, ter a trocar. Mas estou ao seu

dispor. (LUIZ faz um gesto convidando FERNANDO a sentar-se. - FERNANDO recusa, ceremoniosamente)

Luiz

Perfeitamente. V. Ex.^ dá-me licença que eu lhe faça, antes de mais nada, uma pequena pergunta? (Fernando consente, com um gesto) E certo, uão é verdade?, que V. Ex.^ ha dois dias, na minha ausência, procurou n'esta casa uma senhora e que, em seguida, essa senhora saiu acom- panhada por V. Ex.^ ia um gesto de FERNANDO^ a SCU pedi- do, naturalmente, não o questiono.

Fernando

Ha uma pequena questão de facto a rectificar. Tive, realmente, a honra de procurar n'esta casa, como Y. Ex.^ diz, uma senhora mas apenas depois de chamado instantemente, como um velho amigo, em duas cartas por essa mesma senhora. . .

128 VERTIGEM

Luiz

Sei tudo. Sei que essa senhora escreveu a V. Ex.\ Sei que V. Ex.^ lhe respondeu. E para que não extra- nhe esse facto, dir-lhe-hei que o soube com a maior fa- ciHdade pela creada e pelo portador das cartas, que me indicou o nome, a morada de V. Ex.^ etc. Nada mais fácil, como V. Ex.-"^ vê.

Fernando

Nada mais fácil, porque nenhum mysterio havia a desvendar. No emtanto, felicito-o pela absoluta segurança das suas informações.

Luiz

Sei egualmente as condições em que V. Ex.^ estava para com essa senhora.

Fernando

Vejo, n'es3e caso, que V. Ex.^ não necessita de ne- nhuma espécie de explicação minha.

Luiz

Sim— sobre um ponto. Presumo que V. Ex.^ por qualquer extranha e absurda circumstancia, ignorava ao entrar aqui, e, depois, ao acompanhar essa senhora, a minha situação junto d'ella.

Fernando

Direi a V. Ex.-* que conheço essa senhora como mulher d'um amioro meu.

ACTO TERCEIRO 129

Luiz

E eu direi a V. Ex.^ que essa senhora em minha casa estava exclusivamente entregue á minha confiança, á minha protecção e ao meu amor.

V. Ex.^ o diz.

Fernando

Luiz

E, portanto, que tenho o direito de perguntar a um desconhecido para mim, que aproveita, em tão extra- nhas condições, n'esta casa, a minha ausência, as razões do seu proceder que, de homem para homem e, em- bora sem acrimonia, me permitto o direito de extranhar.

Fernando V. Ex.^ acabou?

Luiz Por agora.

Fernando

Se era isso o que V. Ex.^ desejava saber de mim, sinto não poder satisfazer os seus desejos. O único juiz das minhas acções, boas ou más, e das razões que di- ctam o meu procedimento, em bem ou em mal, sou eu e mais ninguém.

Luiz

Mesmo quando essas acções dizem directamente respeito a outras pessoas que as podem extranhar^

1 30 VERTIGEM

Fernando

Em qualquer caso. É esse o meu modo de vêr.

Luiz

Não é o meu. E sinto dizer-lhe que o seu modo de vêr não não o partilho, como, no caso presente, o não acceito.

Fernando

Se todos n'este mundo estivessem d'àccordo, a vida seria, meu caro sr., muito mais insipida ainda do que na realidade é.

Luiz

Maria Eduarda sahiu d'esta casa sem ter sequer com migo a attenção d' uma explicação. Ha dois dias que a espero. Costumo acceitar na vida todas as situaçõe-. menos as do ridiculo.

Fernando

(Serenamente; Está V. Ex.'^ COmO CU.

Luiz

Meu caro sr. ! Maria Eduarda deixou por mim o seu lar, as suas relações, os seus amigos. E minha amante ! Costumo guardar as minhas amantes emquanto me apraz e pedir contas áquelles que se intromettem na minha vida, estorvando-me no meu caminho !

Fernando

vParando em frente d>iie) Ha meia hora quc O sr. cstcá fa- zendo todo o possível por me irritar— e que eu me es-

ACTO TERCEIRO 13|

tou esforçando o mais possível por lhe não satisfazer a vontade, (com mais violência. Sinto, porém, que poderei d'um momento para o outro irritar-me também e que isso lhe daria a si prazer. Paliemos, pois, com calma para não chegarmos a esse extremo para mim soberanamente desagradável. O sr. quer inauditamente tornar-me res- ponsável porque a sua amante o abandonou por horas, por dias ou para sempre ! E parece que ficaria satis- feito se eu me prestasse ao papel de a ir buscar para Ih 'a restituir I

Luiz

Estaria no direito de Ih 'o exigir.

Fernando

Ora, meu caro sr., desde que o mundo é mundo,, as mulheres são mulheres e os homens são homens. Maria Eduarda sahiu d'aqui porque quiz, voltará ou não voltará, se quizer. Como mulher, poderá reconhe- cer-lhe ao sr. os direitos que o sr. pretende ter sobre ella. Como homem, eu nada tenho com isso e muito menos com os seus despeitos, (indo nara sair) Meu caro sr. I Até sempre !

Luiz

(impedindo-o de sair) Ainda não 1 Tcnho O direito de sup- pòr que foi pelos seus conselhos que Maria Eduarda d'aqui sahiu. Tenho, pois, também o direito de pergun- tar — visto que não posso avistar-me com Maria Eduarda que mal respondeu a uma carta minha o que é que Maria Eduarda pensa fazer. Siga ella o rumo que qui- zer, é-me indifferente mas preciso, ao menos, de sa- ber qual é esse rumo. Não tenho a quem me dirigir para o saber. Dirijo-me ao sr., que deve poder respon- der-me.

132 VERTIGEM

Fernando

Pois dirige-se muito mal.

Luiz

Mal ou bem, é uma solução. Não desisto d'ella.

Fernando

(Nervosamente) O que, trocado em meudos, quer dizer que o sr. me lança uma verdadeira provocação. De ho- mem para homem, não o temo. Estou ás suas ordens. Limitar-me-hei apenas a dizer-lhe que o motivo esco- lhido para essa provocação, se ao sr. se lhe pôde afigu- rar natural, a mim afigura-se-me indecoroso ! Ha meia hora que o sr. falta ao respeito que deve a uma senhora, querendo tornar-me responsável por actos d'ella e sup- pondo-me tão. . . tão inconsciente, que fosse capaz de me prestar ao papel de o ouvir até ao fim sem protesto. O sr. quer amarrar essa senhora ao seu amor-pro- prio, á sua vaidade, e suppõe ter sobre ella qualquer espécie de direitos, quando, nas suas condições, um homem para com uma mulher não tem senão deve- res !

Luiz É uma lição, isso ?

Fernando

Não é uma lição. É lembrar-lhe que, para acceitar as suas provocações, eu teria de moralmente me asso- ciar á sua acção. Não o farei em nenhum caso. En- contre agora, meu caro sr., outro motivo para me pro- vocar: estarei prompto a responder-lhe!

ACTO TERCEIRO I33

Luiz

É preciso então outro motivo ? O sr. disputa-me uma mulher ? Luctemos com armas eguaes ! Preconcei- tos para traz das costas ! Veremos se o sr.' não acha sufficiente esse de um homem, seja com que pretexto fôr, se lançar no caminho d'outro para justificar todas as affrontas e se o sr. cruzará covardemente os bra- ços deante d'alguem que se arrogue o titulo de lhe im- pedir o seu amor ou, se quizer, o seu orgulho ! (Avan- çando para a porta da D. F., onde está ELISA) VcrcmOS !

SCENA X

os MESMOS, .MARIA EDUARDA, depois ELISA M. Eduarda

(Que ha momentos appareceu á porta da D. B., avançando antes de

LUIZ chegará D. A.) É ínutil ! (A LUIZ) O quc tu dcscjavas,

€Í-l0 ! Eis-me ! (LUIZ detem-se. FERiNANDO comtudo, sem compre- hender, avança para a D. A.)

M. Eduarda

(N'um grito) Fcmando 1 Estamos todos representando uma comedia indigna de si ! Salve-se de todo este lodo !

Sou eu quem Ih 'o pede ! 'Um momento. ELISA abre lentamente a porta da D. A. Detem.-se no fundo. FERNANDO recua, surprehendido).

Elisa

(De vagar, empallidecendo a cada palavra) O Segrcdo que aS

suas instancias não conseguiram arrancar-me, entrega-

10

34 VERTIGEM

lh'o... O acaso. Pertenci a este homem. Os documen- tos d'esse passado, vinha busca-los para os sepultar em

cinza. (Entregando-lhe o masso de paptris) EntregO-lh'OS. EiS tudO.

que tinha razão quando lhe dizia que melhor era não querer saber. . .

Fernando

(Sem avançar para ELISA) Obrigado, minha amiga. Não me mais explicações (a luiz^ Quanto à nós, meu caro sr., tenho a dizer-lhe que a sua covardia me convçnceu ! Se entender que deve pedir-me quaesquer satisfações, não me demorarei em lh'as dar no campo em que qui- zer !

Luiz

(Cynicamente. É agora O momeuto de Ih 'as não querer pedir. Basta-me a satisfação de o ver d'accordo com- migo !

Fernando

Como queira. 'A ELISA, restituindo-lhe o masso de cartas que ella

ha pouco lhe entregou) O seu segrcdo, minha amiga, restituo-

lh'0 ! (sae)

SCENA VI

Òs MESMOS, AitNos FERNANDO

Ficam os três - MARIA EDUARDA, ELISA e LUIZ. Nào s? olham. Mo- mento de silencio. LUIZ encaminh:',-se nervosamente para a mesa da E., folheia um livro, atira-se para cima d'uma poltrona, mordenJo um charuto.

M. Eduarda

(Avança para ELISA toman.lc-lhe a mão) Minha pDbrC Elisa

Ò mal que nos faze-m !

I

ACTO TERCEIRO 135

Elisa (Como n'uni sonho triste) O mal quc iiós fazemos ! . . .

(Lentamente, encaminha-se para a porta. LUIZ vae a levantar-se para fallar.

ELISA detem-n'o com ura gesto brusco) Não ! Nem uma palavra ! Se lhe podesse agradecer este momento, agradecer- lh'o-hial Tirou-me um pezo da alma ! Foi melhor assim !

(Sae, sem se voltar para MARIA EDUARDA, que a acompanha á porta, ca- minha amparada aos moveis, á parede, quasi inconscientemente).

SCENA VII

MARIA EDUARDA e LUIZ M. Eduarda (A LUIZ) E agora, aqui me tens ! . . .

Luiz (Com ironia) Regressas ?

M. Eduarda Estás contente?

Luiz

Contente de certo! Dir-se-hia que te conquisto pela segunda vez!

M. Eduarda

Não ! Conquistaste-me no dia em que me arrastaste para a tua vida, em que fizeste de mim coisa tua! O

136 VERTIGEM

amor não se renega n'um dia! O crime, muito menos! Desde ha dois dias passaram-se extranhas coisas entre nós ! Tudo isso, o que acabo de ouvir, o nosso presente, o nosso futuro, cavam entre nós um abysmo insondá- vel ! No emtanto, estou aqui ! Nunca pensei em deixar de voltar ! Sou a tua presa ! Não te fujo !

Luiz

Não tens mais explicações a dar-me de tudo o que fizeste, de tudo o que se passou ?

M. Eduarda

Não. comprehendi que não somos da mesma raça. Falíamos a mesma lingua e não nos entendemos ! Se te desse explicações, as verdadeiras, tu não as entende- rias.

Luiz

O que eu não entendo, de facto, é a linguagem que me falia agora uma mulher que ha quatro mezes se ati- rava loucamente para os meus braços ! Entendias-me então ! Entendia-te então !

M. Eduarda

Entendiam-te os meus sentidos, suppunha enten- der-te a minha imaginação para a qual tu eras... o desconhecido, a vertigem do amor, a voluptuosidade, a febre do imprevisto! Nunca te entendeu a minha con- sciência! Quatro mezes deram-m'o a adivinhar. Um quarto de hora bastou-me para o conhecer!

i

ACTO TERCEIRO 137

Luiz

Accusas-me de quê ?

M. Eduarda

Na realidade, de nada. Tu não és, no fundo, mais do que os outros homens são, quando sobre a nossa alma vencida e anniquilada coUocam o seu de do- minadores ! Não me enganei em ti ! Enganei-me no que procurava em ti, no que procurava no amor fora da minha consciência. Tu não me deste senão o que podias dar-me, senão o que devias dar-me : remorso, vergonha de mim mesma ! . . . Agora pertenço-te. Não me dis- cuto ! Era isso o que o teu orgulho gritava, o que o teu orgulho pedia ! Escravisa-me ! Uma condição imponho.

Luiz

Sabes que te estou a achar deliciosamente provo- cante, com o teu novo aprumo de victima de romance ?

M. Eduarda

Se tu não podes entender-me !

Luiz

Basta ! Não me obrigues a mandar-te callar !

M. Eduarda Podes mandar !

Luiz (Baixo) Fêmeas !

138 VERTIGEM

M. Eduarda

Mais nada?

Luiz

Sim. Essa condição? Pôde saber-se qual é?

M. Eduarda

Sahirmos im mediatamente de Lisboa, para não mais voltar a Portugal. Irmos viver a vida toda face a face, ser o vivo castigo um do outro. Acceitas?

Luiz Estás louca?

M. Eduarda

Recusas ? sabia. contava com isso ! Sou franca. Por isso vim.

Luiz

Impões-nos, a mim e a ti, o degredo por toda a vida, hein ? Quem te ensinou o recado? Se quizesse, podia acceitar e faltar depois. Ninguém compromette o im- pcssivel.

M. Eduarda

Acceitando tu, estava na minha mão impedir-te de faltar.

Luiz E se eu não acceitar imposições?

ACTO TERCEIRO 139

M. Eduarda Não nos veremos mais !

Luiz Voltas para o teu marido?

^\. Eduarda Terei comprado a minha liberdade. Isso é commigo. Luiz

Estás louca, repito ! EntendamO-nOS. 'Encarando-a com desafio, a sorrir) ComO doÍS ÍnÍmÍgOS ?

M. Eduarda

(Olhando-L) nos olhos, sentada em frente d'elle, muito próxima, com a face entre as mãos, os cotovellos fincidos na mesa) ComO doÍS ÍnÍ- mÍgOS !

Desce o pa\n'o

ACTO IV

Gabinete de trabalho de Manuel. Poltronas, sophá,. mesa larga com papeis. Á D., telephone. Grande porta envidraçada, ao F., dando para o jardim.

SCENA I

MANUEL E ELISA

(Ao abrir o panno, sentada á mesa, ELISA escreve)

Manuel

(Ao telephone) Sim. Dcpois (Jas 5 horas, em qualquer occasião. Deixo pessoa encarregacia (de tractar de \\xáo, (de mostrar tu(do... Obrigado. Sim, sem falta. Muito obrigado... Estamos entendidos. Adeus. (Deixan- do o telephone, para ELISA, Está prompto?

Elisa

(Levantando os olhos do papel) Quasi. (mostrando a MANUEL a

iojha de papel que escreveu) Parece-me que está bem. Manuel Estão mencionados todos os quadros, livros?. . .

ACTO QUARTO ] 4 1

Elisa

Tudo. Nos quadros exceptuei apenas aquelle retrato grande, a óleo, do sr. Marquez.

Manuel

Sim, de meu pae. Fez bem.

Elisa

Dos outros objectos exceptuei aquella floreira de crystal e prata. . .

Man'uel

Não, não. Inclua tudo. 4

Elisa

Sempre ouvi dizer que a estimava tanto, como re- cordação . . .

Manuel Sim! Recordações... Tanto melhor. Inclua tudo. Elisa

(Tomando de novo o papel, para lhe fazer a correcção) Perfeita- mente.

Manuel O resto está tudo prompto? Elisa

(Ainda a escrever) TudO.

1 42 VRRTIQEM

Manuel Foi expedido o telegramma para minha mãe?

Elisa Fil-o expedir logo de manhã.

Manuel

E a

Nini?

Elisa

Passou a noite bem.

'.

Manuel

Está

contente

por partir ? Elisa

Está pre...

mais con

formada. Mas Manuel

continua a

fallar

sem

Na mãe?

Elisa

Sim,

na mãe.

Manuel

Tem-lhe continuado a dizer o que combinámos, não é verdade? Que a mãe teve de ir vizitar uma pessoa de familia, que parte hoje commigo. . .

ACTO QUARTO 143

Elisa

Tenho-lh'o repetido. Ella insta porém em a vêr, em se despedir d'ella e de si, pelo menos, antes de partir para Sousa. . .

Manuel Tranquillisou-a, não é verdade?

Elisa (Cepois d'um momento) A sr.^ D. Maria Eduarda virá?

Manuel

Supponho que sim. Espero-a dentro em pouco para representarmos os dois, para a pequena, essa triste co- media da despedida. Assim é preciso para acalmar essa inquieta creança, para não a excitar com doentias cu- riosidades ! Virá depois o tempo em que ella terá de saber tudo. Por agora, é preciso mentir-lhe, enganal-a, socegal-a, hein ?

Elisa

Não é tão fácil como isso. Ella parece que tem o presentimento. . .

Manuel

É o mesmo. Instar sempre que a mãe vae com- migo, uma viagem de poucos mezes, que ella fica em Sousa com a avó e comsigo . . . E quando a mãe vier hoje, levar a comedia até ao fim, como se nada fosse. . . <siLVÉSTRE entra pela D. F ) Oh ! ainda bem, meu caro amigo ! O que ha?

1 44 VERTIGEM

SCENA II

Os MESMOS E SILVESTRE

Silvestre

Está tudo entregue. O homem dos moveis ficou de passar por ás 5 e meia.

Manuel Bem, bem. E logar no Sud Express ?

Silvestre Marcado. Um só, marquei um para V. Ex.'\

Manuel De certo. E. . . e (mais baixo) Maria Eduarda?

Silvestre (Com custo) A Amélinha levou-lhe o recado.

Manuel

Preveniu-a de tudo, não é assim ? da necessi- dade de representar essa pequena comedia, de vir des- pedir-se da filha, e sobre o resto. . .

Silvestre Nada disse.

ACTO QUARTO 145

Manuel Bem. Muito obrigado.

Silvestre

(Apoz um momento, com dificuldade, olhando a sala, ELISA, MA-

N'UEL). Então sempre é certo?. . . V. Ex.^ dá-me licença que lhe pergunte se sempre é certo?

Manuel

Certíssimo, meu caro sr. Silvestre, certissimo.

Silvestre

Esta casa desfeita, es moveis em leilão, quadros, tudo ?

Man'uel Tudo ! Conservar isto para quê ?

Silvestre E, no emtanto, tudo isto são recordações. . .

Man'uel

De felicidade, de tranquillidade. . . E certo. Mais uma razão para desfazer, para pulverisar tudo I ... O meu tabellião deve vir dentro em meia hora. lhe fica, meu caro sr. Silvestre, a procuração passada ao sr. para vender, para dispor de tudo como quizer... Como quizer ! \o emtanto. mais uma vez lh'o recommendo, com o menos de publicidade possível. E o essencial. Quanto a outras pequenas coisas, conversaremos.

146 VERTIGEM

Silvestre Quando?

Manuel

Immediatamente. É o melhor. (Vendo o relógio) Temos meia hora. Mas aqui, não. (Apontando elisa, que escreve) Para não perturbarmos este trabalho.

Elisa

Está quasi prompto.

Manuel

E o mesmo, (a silvéstre) Quer dar-se ao incommodo de me esperar, por exemplo, na sala contigua ao meu quarto? Tenho, mesmo, alguns papeis a confiar-lhe.

Silvestre

(Levantando-se) Pois uão. Onde V. Ex.^ quizer. - Á obediência de V. Ex.^ (Voltando atraz, mais baixo) Sempre me atrevo a fazer o pedido a V. Ex.^. . .

O que

Manuel

SlLVÉ^FRã

O bilhete do comboio. Podendo ser, é claro. Se V. Ex.^ fizesse o favor de m'o guardar para a minha collecção... V. Ex.^ desculpará... Como não viajo!... tenho um, d'um collega que foi a Badajoz. E do paiz, muitos. . .

ACTO QUARTO 147

Mantuel

(Sorrindo) Ora essa, sr. Paixão, ora essa ! Furtarei todos os bilhetes aos revisores para a sua collecção !

(SILVESTRE sae;.

SCENA III

MANUEL, ELISA e, pouco depo:s, FERNANDO

Manuel

.A ELISA) Logo que tenha todo esse pequeno cataloga copiado, peço-lhe o obsequio de o entregar ao Silves- tre. Eu vou fazer-ihe, a esse respeito também, todas as

reCOmmendaçÕeS. (Apoz um momento, indo a retirar-se e voltando

atraz) Não sci se tcrcmos tempo, logo, para fazer as nossas despedidas. E eu não quero, Elisa, separar-me de si sem lhe dizer todo o meu profundo reconhecimento pela obra de generosidade e de conforto que, durante estes mezes, representou n'esta casa.

Elfa

Oh I por Deus I Fiz o meu dever.

Manuel

Não. Na carta que escrevo a minha mãe agradeço- ihe a generosa idéa que ella teve de a mandar para junto de minha filha n'estes attribulados dias. Mas a si também deixe-me agradecer-lhe principatmente.

348 VERTIGEM

Elisa Tudo isso é excessivo para mim. Eu não fiz senão

o meu dever. (FERNANDO entra peio F.)

Fernando Sou de mais?

Manuel

Não. Tenho o Silvestre á minha espera para umas pequenas disposições, antes de sair. Dás-me licença? É

um momento. Volto já. (Novamente, a ELISA, estendendo-lhe a mão)

E entre nós, de novo muito obrigado. A Elisa é a bon- dade, a dignidade personificadas. (Como para si) Pensar eu que se tivesse encontrado na minha vida uma mulher da sua pureza perfeita, não seria agora o homem que sou !

Elisa

(Perturbada) E CXCCSSivO . . . COmO tudO ÍSSO é . . . CX- CeSSivO ! (Levantando-se) Eu pOSSO vir logO COncluir ÍStO. (Vae para sair)

Manuel

Não, não. Pouco deve faltar. É melhor acabar ahi já. O Fernando promette não a distrahir e eu mesmo venho buscal-o. (Sae)

ACTO QUARTO 149

SCENA IV

ELISA E FERNANDO

(ELISA fica, sem querer sentar-se, sem decisão agora para sair, mas tam- bém sem querer ficar com FERNANDO. Vae a dar alguns passos para retirar-se quando FERNANDO se lhe dirige)

Fernando

(Vendo o papel que ella escreve) E Uma COpia. ?

Elisa

É, sim. . . Uma copia. . . O catalogo dos objectos d'arte para vender.

Fernando Manuel vende então tudo ? Elisa

Sim, tudo. (ELISA continua a copiar. FERNANDO passeia a sala, olhando-a de vez em quando,'.

Fernando

(Para dizer alguma coisa, mas evidentemente com o pensamento n'ou-

tra parte) Uma resolução súbita essa de Manuel, não é verdade ?

Elisa

Sim inesperada.

11

1 50 VERTlOeM

Fernando

É coisa por vezes bem difficil tomar uma resolução na vida !

Elisa

(Levantandc-se, como dando o trabalho por conchiido) Conforme.

Ha pessoas que as sabem tomar a tempo e que as sa- bem manter.

E dizer que esse é, afinal, o segredo máximo da vida !

Elisa

Para certas pessoas. (Vae a sJr)

Fernando

A minha presença incommodou-a. . .

Elisa

Não. Terminei o meu trabalho.

Fernando

E assim entende que entre nós nada mais ha .1 dizer ?. . .

Elisa O que ha-de haver? O acaso fez-nos dizer tudo

ACTO QUARTO 151

Fernando

Nem tudo. Ambos nós devemos ter que dizer um ao outro.

Elisa O quê ?

Fernando

Confes30-lhe, Flisa, que a revelação que no outro dia me fez do seu passado me desconcertou. Ha dois dias que a trago ás voltas no meu espirito, sem a com- prehender. Que quer? julgava-a tão differente das ou- tras mulheres I A sua falta deve ter, por força, uma explicação e é essa explicação que eu desejo por mim , . . por si.

Elisa

E essa explicação que lhe faria, se ella é a mesma em todas as mulheres ! . . . Eternamente a mesma ! . . . Se ella nasce da mesma eterna lucta que faz com que nós, os dois sexos, sejamos sempre os mesmos inimigos, na mesma perpetua anciã de nos devorar. . . Mais fra- cas, nós, mulheres, somos quasi sempre as vencidas. E quando, como no meu caso, a nós temos de dar contas das nessas faltas, o nosso orgulho tem o direito de nos preservar das explicações humilhantes e das ge- nerosidades afrontosas. . .

Fernando

Quem lhe pede contas do seu passado? Não, Elisa! Não é o saber que pertenceu materialmente a outro homem que me perturba. Como pedir-lhe contas de não ter adivinhado que me viria a encontrar? Se não houvesse homens que resgatassem os crimes dos outros

1 52 VERTIGEM

homens, onde estaria o perdão para o nosso sexo egoís- ta?.. . Não! Moralmente, é que a sua falta me choca, apparece para mim incomprehensivel. Por Deus! diga- me qual foi a parte que, no seu erro, teve o seu cora- ção ... isso me interessa !

Elisa

ínteressa-o? E em que nome?

Fernando

Em nome do meu amor !

Elisa

Guarde o seu amor para quem melhor o mereça !

Fernando

iFerido) Elisa !

Elisa

(Olhando-o, com altivez) FemaudO !

Fernando Sabe que é um monstro de orgulho?

Elisa E possivel. O orgulho é a minha única riqueza.

Fernando

Mas em que se funda esse orgulho para lhe dar o . direito de se isolar assim de mim, de me expulsar por ,

ACTO QUARTO 153

esta forma da sua confiança e de, lentamente, fazer com que eu perca todo o conceito que de si tinha até. . . a poder julgar indigna d'elle? É isto o que quer? Pois bem ; seja ! Mas não será sem primeiro lhe dizer que pratica um crime, peior que todas as culpas do seu passado porque alguém é agora attingido por si, en- volvido por si na sua obstinação . . . Alguém que soffre com o seu silencio mais do que com todas as revela- ções que lhe pudesse ouvir. . . Alguém que soffre por moralmente a perder. . .

Elisa

(Que a cada uma das palavras de FERXAXDO se tem deixado conven- cer, depois de luctar comsigo própria) Sc é nCCCSSariO Saber tudO,

saiba-0. Mas, depois de o saber, quem o persuadirá de que eu não fallei para me justificar, para me absol- ver aos seus olhos, com o interesse, emfim, de o recon- quistar ?

Fernando

O seu coração.

Elisa

Pois bem. Foi assim. Nem foi por desvario, nem por fraqueza, nem por timidez que me entreguei a Luiz. Não. Foi ainda por. . . orgulho! Luiz sabia que eu tinha amado outro homem antes d'elle e que esse noivo, meu primo, me morrera quasi nos braços. O meu feitio, o meu orgulho, tinham feito de mim uma creatura intractavel n'esse meio de província. Orgulho de pobre, de desageitada, de humilde! Alguém lembrou- se de me calumniar. Eu sabia-o e soffria. Mais tarde appareceu Luiz. Amava-o. De repente, vi-o a querer fu- gir de mim. Tinham chegado a Sousa Maria Eduarda e Manuel. Elle começava a fazer a corte a Maria Eduarda.

154 VERTIGEM

Estava longe de o suppòr a minha innocencia era incapaz de o adivinhar. Via-o fugir-me. Suppuz que a calumnia chegara aos seus ouvidos. Tive o orgulho de querer saber. Meias palavras. A vergonha de ter soffrido annos de calumnia em silencio, cegou-me. Entreguei-lhe tudo o que possuia do pobre morto o que restava da sua puríssima memoria : desabafos, ternuras, pieguices dos dezesseis annos. íN'outro tom^ Agora que resolvi não pensar no futuro, pois me resta o passado, essas re- líquias sagradas que, á beira d'um leito de agonia, eu jurara conservar religiosamente commigO; pareciam-me profanadas nas mãos do outro. Sou supersticiosa, que quer? Foram ellas que me levaram aníe-hontem a ca- sa de Luiz. Queria leval-as commigo para a minha soli- dão. . .

Fernando

isso a levou lá?

Elisa

isso. O que elle possa possuir de mim é-me indifferente ! Apezar da prova que eu lhe dava, Luiz continuava a evitar-me. Qaiz imaginar ainda que o não convencera. A esse tempo, a sr.'' Marqueza: em casa de quem estava e que suspeitava de tudo, fechou quasi as suas portas a Luiz. Encontrámo-nos um dia na primeira e ultima entrevista que lhe concedi ás escon- didas. A minha innocencia, o meu orgulho!... Imagi- nei que elle exigia de mim uma ultima prova para o convencer da minha pureza. Amava-o. Cedi. Eis a historia toda. Poucos dias depois, Luiz partia para Lis- boa sem me escrever. Poucos mezes depois, fugia com Alaria Eduarda.

Fernando É tudo?

ACTO QUARTO 155

Elisa

É tudo. FERNANDO fica silencioso. ELISA approxima-se mais d'elle, esperando uma palavra de confort) ou de perdão. FERNANDO per- nanece silencioso. - ELISA, olha-o com desihnto) E, HO CITltantO,

não tem uma palavra para me dizer I Esperava-o.

Fernando

E poude perdoar a Maria Eduarda ?

Elisa

Pude. Até ante-hontem, ella ignorou a maior parte do mal que me fez !

Fernando

íAgitadamente, sem poder olhar ELISA, apezar de tudo) ComO a

vida é monstruosa I Como a vida é monstruosa ! Elisa

(Olhando-o sernpre com o mesmo desalento e o mesmo orgulho) Es-

perava que não tivesse outra coisa para me dizer ! Fernando

(Dominando-se) EHsa, minha amiga. . . (Vae a aproximar-se de ELISA. Esta desvia-se para o fundo. SILVESTRE entra, dirige-se á ja- nella, espreitando paia rori, depois de ter lançado um olhar de curiosidade a ELISA e FERNANDO. ELISA sáe pelo jardim)

156 VERTIGEM

SCENA V

FERNANDO, SILVESTRE E DEPOIS M. EDUARDA e AMÉLINHA

Silvestre

(Aproximando-se de FERNANDO, com timidez) Eu peçO mil deS-

culpas a V. Ex.^ Estou dentro a conferir uns docu- mentos com o sr. Manuel. Sabia que V. Ex.-^ estava aqui, que naturalmente se demorava, mas, apezar de tudo, com o receio de que V. Ex.^ ás vezes se ausen- tasse, aproveitei uma aberta, um momento em que o sr. Manuel não precisava de mim, para vir a correr dizer a V. Ex.^. . . Não pude escolher a occasião. . .

Fernando

De que se tracta, sr. Paixão?

Silvestre

Um recado da sr.-^ D. Maria Eduarda. Ella não deve tardar e pediu-me para dizer a V. Ex.^ que, logo que chegasse, antes de mais nada, lhe desejava fallar.

A mim? A V. Ex.^

Fernando Silvestre

ACTO QUARTO 157

Fernando

Pediu-lhe para m'o dizer? E, se não ha indiscreção^ como?

Silvestre

(Hesitante) Eu peço descuIpa a y. Ex.^. . . mas ha in- 'discreção . . .

Fernando Basta, basta! aqui não está quem fallou, amigo

Sr. Paixão. (Encaminha-se para a potta)

Silvestre

(Desconcertaro V. Ex.^ sác ? Peço mil desculpas a W Ex.^ Mas V. Ex.\ . . \'. Ex.^ desculpe-me V. Ex.^ fazia talvez melhor ficando. . .

Fernando

Se não se desse o caso, que infelizmente se dá, de eu não lhe poder fazer a vontade, sr. Paixão.

Silvestre

Eu comprehendo, comprehendo porque é que \'. Ex.^ não quer ficar... Xo emtanío, a sr.-^ D. Maria Eduarda, pelo tom em que me fallou, com tanta ins- tancia, é porque tem alguma coisa de grave a dizer a V. Ex.^. Eu não devo deixar V. Ex.^ sair. . . <a um gesto de FERNANCO) Não dcvo dcixar sair V. Ex.^, ainda que, para isso, tenha de romper um segredo, commetter uma indis- creção. . . Sim, eu sei porque W E.^ não deseja avis- tar-se com a sr.^ D. Maria Eduarda... (O creado apparece

á E. A.-SILVÉSTRE, para o creado, antes que elle falle) É O Sr. Ma-

158 VERTIGEM

niiel que me chama, não? Eu vou, vou! É um supplicio istol Eu sinto que, se por um lado Silvestre Paixão, homem, pae de família, deve fallar; por outro lado, Silvestre Paixão, inferior, simples inferior, deve callar-se e obedecer. Não ! Isto tudo é demaziada cruel- dade para com aquella pobre senhora, que ha dois dias, em minha casa, não faz senão chorar. . .

Fernando Em sua casa ?

Silvestre

Sim, em minha casa. Não esteve seis horas cm casa do outro. Appareceu-nos lá, ante-hontem mesmo, aquella pobre senhora ! Disse-me que lhe procurasse trabalho, quer trabalhar, viver sósinha, e falia em entrar como dama de companhia para uma familia estrangeira... Ella ordenou-me que nada dissesse ! Eu mesmo tive de fingir que mandava a Amélinha a casa do outro com o recado do sr. Manuel, para a sr.'^ D. Maria Eduarda vir hoje aqui despedir-se da menina. Eu tenho visto muitos casos d'estes que não acabam assim ! (\"outro tom» V. Ex.'"^ vê. V. Ex.^ naturalmente, como o sr. Ma- nuel, julgava a sr.^ D. Maria Eduarda de volta a casa do outro. . . Mas agora. . . V. Ex.-'^ respeita o meu se- gredo, mas agora não terá duvida em esperar a sr.^ D. Maria Eduarda, não é verdade? (Emquanto silves fre

falia, MARIA EDUARDA tem entrado, descido a scena. A sua «toilette» contrasta com a do 1 acto ; agora vem modestamente vestida de preto. Traz uma mantilha preta : destraça-a lentamente. É seguida da AMÉLI- NHA. SILVESTRE e FERNANDO não dão pela entrada das duas)

Fernando

(D . . : ... .. lirdim) Toda a duvida, meu caro sr. Tracta-se d'um segredo, e eu protestei não me envolver mais em

ACTO QUARTO 159

segredos. Quanio tiver algum, entregar-lh'o-hei. sr. col- leccionador !

Silvestre \'ejo que ainda fiz peor em fallar. . . Não ha nada

como eSíar CalIadO ! (Vé de súbito MARIA EDUARDA: vae a de- nuncial-a. MARIA EDUARDA impõe-lhe silencio e, n'um gesto, pede-lhe que se retire. SILVESTRE, sáe timidamente pela E. A.— A?>1ÉLINHA, que não tem passado da porta, íáe também. FERNANDO, que ia a sair, volta atraz a procurar o chapéu e a bengala, que deixou á entrada, sobre uma cadeir?, quando entrou. Ao voltar-se, com MARI.A EDUARDA)

SCENA VI

MARIA EDUARDA e FERNANDO

M. Eduarda

Queria evitar vêr-me, Fernando ?

Fernando

Não porque sabia pelo Manuel que a A'aria Eduarda viria hoje aqui, e não duvidei em apparecer também.

M. Eduarda Mas queria evitar fallar-me? Fernando

(Depois d'um silencio, constrangido) Sim . . e ttãO. A prioci-

pio, quando o Silvestre me disse que a Maria Eduarda, antes de mais nada, logo que chegasse aqui, desejava

160 VERTIGEM

fallar-me, eu que a suppunha de novo na casa em que ha dois dias, em tão desagradáveis circumstancias, a vi, imaginei que quizesse encarregar-me de alguma nova missão junto do Manuel, que, com franqueza me repu- gnaria desempenhar agora, depois do que se passou. Em seguida, o Silvestre disse-me que a Maria Eduarda estava em casa d'elle, mas que o obrigara a guardar d'isso, para todos, segredo. Fiquei sem perceber, e per- sistindo em tentar evital-a, obedeci a um movimento, se quizer, de egoismo. Verdadeiramente, não a evitava pelo desejo de a evitar. Fugia pelo desejo de estar só. Tinha necessidade de olhar para dentro de mim, a sós commigo. . .

. M. Eduarda

Não lhe peço senão um instante, Fernando. E pe- ço-lh'o, como um momento para ambos nós decisivo.

(Passando a mão pelo rosto, fechando' um momento os olhos, com uma ex- pressão de infinita fadiga) Tudo isto, voltar a vêr csta casa, o Manuel, a minha filha ! . . . Entrar aqui de novo, para simular para a minha creaturinha a comedia d'uma des- pedida, a comedia da felicidade ! E é ella, a minha Nini, quem m'o exige, é meu marido quem me impõe essa

agonia das agonias 1 . . . iVae a cair, como tomada d'uma vertigem,

e encosta-se a um movei) Comprchendc quc também eu de- sejaria fugir... (N'um esforço enorme de resolução) MaS tcmOS

que fallar !

De si?

Fernando

M. Eduarda

De mim? Não. Por um momento, não! De si, Fernando. Leio nos seus olhos, na sua expressão, nos seus gestos. . . É certo que soffre ?

ACTO QUARTO 161

É possível.

Fernando

M. Eduarda

É então certo que amai. . . O que o amor faz de nós ! Adivinho o que se passou. Fui eu a involuntária causa de tudo o pretexto para Luiz abandonar Elisa, o motivo da scena de ha dois dias. Mas é necessário que lh'o jure, Fernando? A surpreza que n'essa scena dolorosa o feriu a si, feriu-me a mim ... Eu também

tudo ignorava,

Ferxando

São inúteis mais explicações, Maria Eduarda. Não as prolonguemos. A Maria Eduarda foi em tudo isto a fatalidade. A fatalidade não se discute, acceita-se. Não lhe quero mal. Estou certo de que ninguém lhe quer mal. Não accresceníe as suas dores com as dores alheias. . . Não o consentirei.

M. Eduarda

Bem sei. O soffrimento é egoista. Eu própria pre- ciso d'um exíranho esforço para cerrar os olhos e es- quecer-me de mim... Uns segundos mais... Tudo isto me parece a antecâmara de minha sepultura. . . Preciso de todas as energias para mim, para a prova final da minha primeira expiação . . . Mas deixe-me pen- sar um momento nas dores alheias, que são também um pouco as minhas, deixe-me cobrar, n'uma acção bôa, as forças de que preciso para desperdiçar em breve . . . Fernando, ama ainda" Elisa, não é verdade ? Estender- Ihe-ha a sua mão, não é assim?

162 VERTIGEM

Fernando

iMaria Eduarda ! Maria Eduarda ! Não prosigamos ! Eu mesmo temo de ouvir a minha resposta! Pela pri- meira vez na minha vida, tenho medo da minha con- -sciencia 1 É horrivel !

A\. Eduarda

Exlranha situação que o acaso inexorável preparou ! Houve um momento, lembra-se ? em que o Fer- nando foi a voz da minha própria consciência que eu não via. A sua voz accordou em mim mundos novos de dor, de remorso e de verdade. . . E agora, serei eu a voz da sua !

Fernando

Vamos! Sua filha espera-a, seu marido espera-a !

Al. Edjarda

Xào, meu amigo ! Entrei, guiada pela sua mão, na phase em que a dôr é reflectida e calma. Para mim, um ruiniito mais, um minuto menos que importa ? Se o amor me perdeu, devo liquidar com o amor todas as minhas contas ! Depois de ter sido, e emquanto não volto a ser apenas uma triste mulher que soffre eu quero ser, por uns segundos, a dolorosa encarnação de todas as mulheres, a voz de todas ellas, espoliadas, conde- mnadas na mesma vertigem do amor, vencidas no in- ferno de todas as duvidas, de iodos os desesperos, de todas as oppressões ! Mais do que uma mulher, deixe- me ser aos seus olhos a mulher e, conio se em mim, todo o meu incomprehendido sexo se confessasse, di- zer-lhe: sim, é justo que nós sofframos o peccado que nas nossas almas impuras gerámos, mas qr.e sofframos £Ó o quinhão dâs nossas faltas, tal como ellas são aos

ACrO QUARTO ] 53

olhos de Deus!. . . Mas é justo que, se os homens nos perdem, os homens, os mais fortes, nos salvem !

Fernando

É justo, é possível. Ainda ha pouco, junto de Elisa, eu estive quasi a proclamar essa christã justiça, mas de proclamal-a a pratrca!-a vae a distancia que separa o Deus da nossa generosidade do Demónio implacável do nosso orgulho ! . . . Demais o sinto !

M. Eduarda

Essa disíar.cia vence-a o amor o amor que é beilo digo-lh'o eu com as minhas lagrim.as cuando é obra da nossa consciência! Se não se tratasse senão de si, a nobreza do seu sacrifício, que foi completo, teria resgatado a sua culpa que, como todas as culpas de amor, tem infinitas absolvições !-— Lembra-se de quando mie disse isto?

Fernando

Lembro. É tão fácil dizel-o !

M. Eduarda

Eu não o comprehendi então ; agora é o Fernando quem o não comiprehende ! . . . Infinitas absolvições ! Ha crimes de que a própria creatura se pode reha- bilitar : são aquelles, como o meu, em que nós preci- samos de expiar, em séculos de dòr, es minutos qi:c fizemos soffrer os outros. A falta de Elisa não é d'essas- Ninguem tem o direito de lha lançar em rosto. Esten- cer-lhe-ha a sua mão, não é verdade ? Os condemnados teeni o privilegio sagrado dos uitiir.os pedidos. É o meu ultimo pedido. Devo-o a essa pobre Elisa, cujos

154 VIRIIGEM

sonhos duas vezes indirectamente estraguei. Perdoe a insistência. Responda-me. Tendo a certeza de ter dei- xado atraz de mim uma palavra de doce e misericor- dioso amor, caminharei depois melhor, d'olhos fecha- dos, para o meu supplicio, para. . . o meu sonho!

Fernando

Alas ha em tudo isso uma coisa que a Maria Eduar- da não vê: o orgulho de Elisa... Ella é d'aquellas a quem se não perdoa, porque o perdão as humilha...

i\\. Eduarda

Porque é d'aquellas a quem se não deve o perdão mas a rehabilitação. . . Procure-a, deixe fallar o seu amor, o seu amor : não lhe falle do passado, não se lembre do passado. . .

Fernando

É preciso tempo I .. . E preciso tempo! Deixe-me recolher commigo próprio, sentir, habituar o meu or- gulho a essa prova . . E, para que occultal-o ? fal-o-hei, sim, fal-o-hei I . . .

A\. Eduarda Não tire á sua acção a nobreza da espontaneidade !

(Aproximando-se d'elle mnis, n"um tom de fadiga extrema) ! Fallc-

íhe. Diga-Ihe o que o coração lhe disser e, antes que ella parta, antes que eu parta, antes que tudo isto fin- de, diga-lhe, sem lhe explicar, que me deve um beijo de reconciliação ! Esse beijo, que eu mereci, me recon- ciliará com a Vida ! Não o faça demorar ! . . . (Ouve-se a

voz de MANUEL. - MARIA EDUARDA estremece e detem-se. - FER- NANDO olha-a um momento, sem fallar)

ACTO QUARTO 165

Fernando E de si, Maria Eduarda? O que vae fazer?

M. Eduarda Aprender a viver, meu amigo, aprender a viver!...

SCENA VII

Os MESMOS, MANUEL e SILVESTRE Manuel

porta da E. A., apparecendo ao fim d'algumas palavrasi A

minha auctorisação não é precisa para mais nada. Mas, se O fôr, entenda-se, meu caro sr. Silvestre, com o meu amigo Fernando, que deve ter noticias minhas e que me communicará o que houver.

Silvestre

(Vendo MARIA EDUARDA, dando alguns passos em direcção a cila, mas sem coragem de avançar, indo para dizer qualquer coisa, calandc-ste

logo) A menos que V. Ex.^ mude de resoUição... O sr. Feriando Lino pôde avisar-me a tempo de. . . de. . .

Manuel

Não, não. Seja de que forma fôr, vinte e quatro ho- nras depois da minha partida, desejo que não haja aqui nada meu. . . Entendidos?

12

1 66 VERTIGEM

Silvestre

Saiba V. Ex/^ que sim.

Manuel

(A FERNANDO) O sr. Silvcstre Paixão tem qu>e te fal- lar. Peço-te que combines com elle umas coisas que me é penoso tracíar eu próprio e que ficarão ao vosso cui- dado. (FERNANDO aproxima-se de SILVESTRE e afasta-se com elle pelo jardim)

SCENA VIÍÍ

MANUEL K MARIA EDUARDA

(MANUEL, com MARIA EDUARDA vae a tocar a campainha)

M. Eduarda

Quem vaes chamar?

Manuel

A Elisa ou a creada para que te traga a Nini. Ou preferes ir despedir-te d'ella ao seu quarto ?

M. Eduarda

É-me indifferente. Como queiras.

Manuel

A pequena fallava em ti, extranhando não te vêr. Queria despedir-se de ti antes de ir para Sousa. Receei

ACTO QUARTO 167

impressional-a não lhe satisfazendo os seus desejos e, para lhe poupar uma curiosidade doentia, mandei pe- dir-te para coUaborares commigo n'esta pequena come- dia para ella por mais penoso que isso nos seja, so- bretudo a mim. Combinei com Elisa dizer-lhe que tu tinhas ido visitar uma pessoa de familia e fazer tudo como se partíssemos hoje ambos para uma longa via- gem em que a não podemos levar. Estás d'accordo com isto?

M. Eduarda Perfeitamente d'accordo.

Manuel Bem. Vou mandal-a chamar.

M. Eduarda

Um momento. É certo o que me disseram : que desfazes a... tua casa, que vendes tudo para partir?

Manuel

M. Eduarda

Sósinho ?

Manuel Sósinho. Tens]^alguma coisa a oppôr a isso? M. Eduarda

(Dominando uni movimento de suprema dõr, n'um desf alie cimento)

Não.

168 vertigem

Manuel

Ordenei agora que dessem a Fernando, para elle t'o entregar, tudo o que te pertence. É o que neste mo- mento elle deve estar recebendo das mãos de Silvestre. Se alguma coisa tiveres a dizer, Fernando me prevenirá.

M. Eduarda

É inútil. Nada terei a dizer. Nada receberei.

Manuel

Como queiras. Ficam negócios entre ti e elle. (Toca

a campainha peb creado)

M. Eduarda

(Apoz ura momento) Demoras-tc ua tua viagem ?

Manuel E natural.

M. Eduarda

Fernando terá noticias tuas? Manuel

É provável. (Ao creado que entra. Diga á sr.^ D. EHsa que, quando a menina estiver prompta, a mande aqui. A minha mala está feita?

O CREADO

Sim, meu sr. (Sáe)

ACTO QUARTO 169

M. Eduarda

(Paliando comesforço. lentamente) Bem SCi que eStáS nO teu

direito, partindo e desfazendo toda esta casa, destruindo tudo... Estás no teu direito. Partindo, mesmo, acho que fazes bem. Mas desfazer tudo assim, loucamente, immediatamente, para quê, Manuel ?

Manuel

Para com esta casa sepultar todas as recordações que ella me evoca. Até ha dois dias, esta casa fallava-me ape- nas de saudades, de soffrimentos, de coisas felizes, de coisas cruéis. Hoje falla-me de mais : falla-me de ver; gonha, de covardia, de desprezo de mim mesmo . . . É preciso destruir !

M. Eduarda

E destruíste tu já, dentro de ti, tudo quanto d'essas recordações te fallava?

Manuel

Tudo. Destruiste-o tu, ensinando-me a desprezar-me a mim próprio. Assim como ha dores salvadoras, ha vergonhas redemptoras. Estive ha dois dias prompto a abrir-te os braços, a offerecer-te o meu perdão. . .

M. Eduarda

De que valia um perdão que eu tinha o ar de ter vindo mendigar?

Manuel

Recusaste-o. Fallaste em rehabilitação, em soffrimen- to, em amor. Commetti a vergonha de estar quasi a

170 VERTIGEM

acreditar-te. Horas depois da sinceridade das tuas pala- vras, davas-me tu a grande prova voltando para o teu amante. Xão é verdade isto?

M. Eduarda

(Anniquilada, no sophá} E.

Manuel

X essa hora, cavou-se entre nós o abysmo supremo. Comprehendi que fora tudo um escarneo. Á vergonha accrescentaste a injuria !

M. Eduarda

Não era isso, isso, o que tu querias : deixar de amar-me?

íManuel Era.

M. Eduarda

Conseguiste-o. Para que m'o lanças em rosto, se era o que me pedias?

Manuel

(Exaitandose; E quercs-me convencer de que te degra- daste a voltar para o teu amante para conseguir que <eu deixasse de te amar?

M. Eduarda Xão.

ACTO QUARTO 171

Manuel

Que com elle permaneces, ostentando a tua vergo- nha, para me ensinar a desprezar-te ?

M. Eduarda Não.

Manuel

(Sem gritos, numa cólera concentrada) Oh ! Ainda bcm I . . .

Tens agora a coragem da verdade ! . . . (Agarra-a pelos pulsos) A verdade é atroz, mas é sempre a verdade I Agora, sim, posso lêr até ao fundo da tua alma, posso medir bem a lama de que és feita. ^Magoando-a) És um monstro !

M. Eduarda

íDesprendendo-se-lhe dos braços, n'um grito de dòr) Oh I Deixa-

me ! Oh ! . . .

Manuel

E se eu te destruisse, como vou destruir tudo isto?... Se eu te desfizesse, carne prostituída, com o prazer não de me vingar, porque para mim tu não és nada, mas com o prazer de libertar o mundo da tua presença mi- zeravel. . . mizeravel . . . mizeravel !

M. Eduarda

(Gritando, Oh I . . . Oh I . . .

Manuel

(Largando-a) Não I . . . Se algum desejo posso ter é o de te cuspir o meu nojo!

172 VERTIGEM

M. Eduarda

(Febrilmente) Não ! Não ! Basta ! . . . Quiz vêr até que ponto tu me podias julgar mal e o teu coração podia acreditar-me infame ! Agora, não ! Mais, não ! Basta ! É tudo falso ! Não voltei para o meu amante, como dizes. Tive apenas a coragem de ir eu própria romper com elle, separar-me, libertar-me! Ha dois dias que vivo em casa do teu amigo Silvestre, que procuro trabalho para viver, para me mostrar digna, aos teus olhos, aos olhos da minha filha, quando ella os tiver para as minhas cul- pas, do vosso esquecimento, do vosso coração !

Manuel

É falso isso ! . . . Se fosse verdade eu o' saberia \

M. Eduarda

Mas se eu impedi que t'o dissessem !

Manuel Para quê?

M. Eduarda

Primeiro, porque te tinha jurado fazer tudo para que tu deixasses de me ter amor. Tinha-t'o promettido. Quiz cumprir. Não pude. E, agora, se t'o occultava, é porque queria eu própria dizer-t'o !

Manuel Com que fim ?

ACTO QUARTO 173'

M. Eduarda

Porque queria vêr se, apezai; de tudo, tu eras capaz

de me acreditar a mim I . . . (A E. a. apparece NTNI. Silen- cio de MANUEL)

SCEXA ÍX

MANUEL, A\ARIA EDUARDA e NINI M. Eduarda

(Correndo para a filha) Minha filha ! (Arrasta NINI até á bocca da scena)

NiNI

Mamã. . .

M. Eduarda

Tinhas muitas saudades minhas?

NiNI

Porque te vaes embora?

M. Eduarda

Vou sim, mas por pouco tempo . . . por pouco tempo ! . . . Tu has-de lembrar-te muito de mim ! Eu lembrar-me-hei muito de ti. . . eu. . . eu e o papá. . .

(N'um movimento brusco, impulsivo, baixo a MANUEL, allucinadamente)

Leva-me d'aqui esta creança ! Não posso supportar o seu olhar . . . (Desfaiiecida) Não posso I

1 74 VERTIGEM

Manuel

(Depois de chamar a creada, a NINl) Bem. AgOra beijaste

a tua mamã, como querias. Vae, vae pôr o teu chapéu. São horas. . . Tu ainda voltas depois a dizer-lhe adeus !

(Aparta NlNl dos braços de MARIA EDUARDA. NIXI corre para a E. A. MARIA EDUARDA segue-a n'uina effusão de ternura)

NiNI

(Já da porta) Vou ter com a mamã EHsa sabes ? Gosta mais de mim do que tu ! (Sae)

SCENA X

MARIA EDUARDA e MANUEL M. Eduarda

(Fica um momento á porta, vendo sair a filha, desce a scena, n'uma

corrida febril) Ouviste, Manuel ? Ouviste-a ? . . . A minha

filha não é . . . minha ! Não ! (Cahindo a chorar, quasi lan-

çando-se-ihe aos pés) Não me tires mais tempo a minha fi- lha ! Roubam-me a minha filha !

Manuel

E o que te doe ! isso te doe !

M. Eduarda

Não, Manuel ! Acredita-me ! . . .

ACrO QUARTO 175

Manuel

E como queres que eu te acredite agora, agora ?

M. Eduarda

Se eu te juro que desde que voltei a vêr-te, voltei a ser tua, tua, da minha filha e tua! Repudiei tudo. Tenho vivido ! pensava em trabalhar, em soffrer !

Manuel

Eis o que era commodo ! Ha dois dias offereci-te eu o meu perdão. Rejeitaste-o. Agora pedes-m'o. Ju- ras! E quem me diz que tu falias verdade? Tu? Mas que razão tenho eu para te acreditar?

M. Eduarda

(No cumulo do desalento) Perguuta-o. Chama Amélinha,

chama Silv^éstre. (MANUEL vae a fazer um movimento pard chamar MARIA EDUARDA detem-n'o n'um movimento súbito) NãO, UãO !

Estava desvairada. Não chames. É inútil.

Manuel

Inútil ? Porquê ?

M. Eduarda

Disse-te a verdade. Está em ti, em ti, o acredi- tar-me ou não. Vês ? Não me acreditas ! Era esta a ul- tima prova que eu queria de ti, que eu queria de mim ! . . . Tens razão, tens razão ! Como has-de tu acre- ditar-me, se eu tanto te menti? Mas justamente agora que não minto, quero ter o direito de ser acreditada e soffro de o não ser!

176 VERTIGEM

Manuel

E que te importa que eu te acredite cu não, desde que eu te perdoe e te restitua a tua filha?

M. Eduarda

Importa-me porque te amo ! Porque sinto dentro em mim a mesma invencivel necessidade de ser amada, porque sinto ainda a anciã da felicidade não a felici- dade do meio perdão que tu me offereces, do meio per- dão que a minha filha me possa dar amanhã, da rega- teada generosidade do teu coração mas a anciã dominadora, immensa, da felicidade completa! Porque te amo tu não me entendes ? eu desdenho o teu per- dão, quero a tua confiança. E essa, que eu acabo de pôr á prova, foge-me justamente, evita-me com razão, abandona-me com verdade !. . . Manuel, Manuel, eu não nasci para me resignar, sinto-o ! O teu perdão, repito- te, seria muito se eu não te amasse, é pouco porque te amo ! O nosso amor por óra não nos basta porque ainda é feito, em ti de desconfiança, em mim de re-

morso

Manuel

E se eu te acreditasse ?

M. Eduarda

Hoje. Amanhã... não! A confiança, como a fe- licidade, não se pede : conquista-se ! E quem a perdeu, mais razão tem para a querer reconquistar. Vae, vae ! Eu fico, . . E acreditar-me-has um dia, e abrir-me has o teu coração mais tarde !

ACTO QUARTO 177

Manuel

(Apontando os moveis, a sala. E ainda me perguiitavaS; ha pouco, para que desfazia eu tudo isto ?

Recordações

M. Eduarda

Manuel

(Mostrando, ao fundo, um bronze sobre uma columna) A(3Uelle

bronze, lembras-te? que nós comprámos juntos!... Dois mezes depois de casados... Tu levavas um ves- tido côr de rosa . . .

M. Eduarda

(Sorrindo) GriS . . .

Manuel

(Insistindo) Côr de rosa! Achaste-o bello : «o Amor espesinhando um coração.. ." Este sophá, esta salinha onde eu trabalhava... tu dizias que a preferias para as tuas vizitas ! . . . (N'uma lembrança súbita) Foi aqui também, de certo, que o outro algumas vezes, na minha auzen- cia, entrou ... A primeira vez, algumas vezes . . . Estas paredes escutaram, viiram ! . . . Dize ! Como foi ? Como foi?

M. Eduarda

Manuel !

Manuel

Como foi? Eu tenho direito de saber! E. . . e. . .

este SOphá. . . dize! Como foi?. . . (Apontando uma poltrona encostada á mesa de trabalho) As lagHmaS qUe CU alli chorci,

quando tu partiste !

178 VERTIGE.M

M. Eduarda Manur.l I É preciso esquecer ! É preciso esquecer!

Manuel '

Tetis razão ! É preciso destruir í É preciso esquecer ! I

SCEXA XI

MARIA EDUARDA, MANUEL e ELISA Elisa

(Apparecendo ao fundo, pelo jardim, a MANUEL) SãO horaS !

(A MARL\ FDIAPDA) A sua filha chama-a. Quer-lhe de novo dizer adeus !

M. Eduarda

(ornando MANUEL) Diga-lhe quc partimos. . .

Elisa

(Baixo, a MARLA EDUARDA) Fcrnando contou-mc o que lhe disse de mim. (Beijando-a na testa) Obrigada.

M. Eduarda

(Beijando-a na face com estremecimento) Ah ! . . . Ainda bem !

Que a benção d'esse beijo, caia sobre a minha filha!

(A MANUEL, olhando-o longamente) Manuel, adeUS !. . . (Apertan- dolhe as mãos nas suas) StUl rânCÔf ! (Aproximandc-o mais de si em quanto ELISA se affasta, olhandc-os ainda) DcstrOC tudO ! Vende

ACTO QUARTO 179

tudo I Dispersa tudo isto que foi nosso e o que o vento precisa de varrer!. . . Guarda, porém, conserva, intacta, a nossa alcova o ninho onde te pertenci e onde nas- ceu a nossa filha. . . Quando, mais tarde, cobertos pelo do soffrimento, voltarmos alli, e, regastadas na dôr as minhas culpas, enterradas no esquecimento as tuas dores, podermos estreitar-nos sem remorso, quero que seja entre esses moveis conhecidos, na luz discreta d'esse abrigo, que eu receba o primeiro beijo de minha filha... e o teu primeiro abraço d'amor. . . d'amor!... (Manuel

encaminha-se para junto de ELISA e vae a sair com ella MARIA EDUAR- DA, cahindo sobre o sophá, num gesto de esperança e de renuncia, n'uma expressão de dôr e de allivio, como que attingindo no olhar uma vizão

distante de felicidade) EsqUCCCr ! EsqueCCr I

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Guimarães, musica do maestro Raul Angelo 10

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Bandeira e musica de Alfredo Silva ... 30

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Monólogos. Collecção de 19 monólogos, por

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Ora o Lopes!, monologo em verso, de Pedro

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verso, por Pedro Bandeira 10

Um sonho, monologo em verso, de Pedro Ban- deira

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